Tag: Inflação
Economia
Política monetária se equilibra na gangorra entre inflação e eleições
7/08/2026- [addtoany]
A próxima reunião do Copom será decisiva para medir a real sensibilidade do Comitê em relação ao risco inflacionário do país. O mercado precificou certo a queda dos juros de 14,25% para 14%. Não foi uma decisão tão fácil quanto parecia, porque a inflação aponta um dedinho para cima, e os preços dos alimentos para consumo dentro de casa subiram. A calibragem da próxima reunião determinará se há um ciclo previsível de baixa da Selic ou se os 14% serão mantidos. O RR aposta na “queda de Pirro” dos juros, o que consagrará o viés político da decisão monetária. Vá lá, digamos que ela decline 0,25 ponto percentual. Ou seja, a taxa estaria influenciada pela bipolaridade do cenário eleitoral e do impacto do gostinho de “quero mais queda da Selic” por parte das empresas, que vivem um ambiente de quebradeira.
As variáveis de risco a serem acompanhadas pelo BC têm aumentado em número e em potencial explosivo. Os técnicos do banco precisam ser polifrontes para olhar todos os lados e ângulos. O político e o monetário sempre estiveram indexados. Não há dúvida sobre isso. Mas, neste 2026, essa combinação está superando o inesquecível 2002, na primeira candidatura vencedora de Lula, quando o atual presidente foi obrigado a renegar tudo o que disse antes para acalmar o mercado. Caso contrário, não seria eleito. Na atual conjuntura, Lula está entregando o receituário do mercado, no campo monetário, mas encarnou Dilma Rousseff, no fiscal hiperbólico. Pode-se dizer que as dificuldades aumentaram – a começar pelo fator Bolsonaro, inexistente à época.
Os juros – que, reza a Curva de Phillips, têm de ser altos para derrubar a inflação – foram elevados. Venceu a ortodoxia? Mais ou menos. Tudo indica que subiram demais para uma inflação que ficou meio morna e não aliviou muito o bolso roto da população. As empresas que clamavam por essa política monetarista estão ingressando no referido modo do “queremos menos Selic” na base do desespero. Segundo os dados do Monitor RGF BizDoc, a recuperação judicial, que era um expediente usado basicamente pelas companhias de maior porte, alcançou também as microempresas. Estas tiveram um crescimento do estoque de 6,2% no primeiro semestre. Em 12 meses, a alta acumulada é de 21,2%. Já o volume de falências continua em um ritmo antilulista. No primeiro semestre deste ano, mesmo com a colaboração creditícia expressiva do governo, foram 66 pedidos. Parece pouco, mas não é. O estoque de falências no país subiu para 2.798 empresas, alta de 2,4% em relação aos primeiros seis meses de 2025. Por trás de cada um desses reveses empresariais há um problema psicológico, um sentimento do não cumprimento do legado, a sensação inevitável de fracasso. São rancores que vão desaguar nas eleições.
O fato de o desemprego não ter subido e ancorar a atividade econômica é, ao mesmo tempo, uma boia de salvação e uma dose de heroína na veia. A droga intoxica por meio das superdoses do gasto governamental. Vicia a economia com a permanente ameaça do estado de dominância fiscal, quando juros altos não reduzem a carestia. Assim, o fiscal tem de ser alto para segurar o crescimento. Mas, como o fiscal tem de andar junto com o monetário, na atual conjuntura, segundo o livro-texto, somente os juros contêm a inflação em alta. Só o fiscal caminha contra o vento, sem lenço nem documento. São linhas paralelas. E, se depender do candidato mais bem colocado nas pesquisas, são linhas que continuarão divergentes no seu governo. Além do monetário, no qual apita, e do fiscal, em que não apita, o BC também tem de olhar para o clima, um fator mais para o aleatório. O fenômeno do El Niño, que provoca chuvas intensas e secas extremamente danosas, já está no gatilho. Só não se sabe a data precisa em que vai explodir o preço dos alimentos in natura. Existem ainda as guerras, com seu efeito sobre o petróleo e o diesel e o encarecimento dos fretes e dos fertilizantes. O impacto deletério desses fatores pode ficar mais para frente das eleições, mas o mercado já os tem como indicadores antecedentes.
Há também incertezas sobre a política monetária em algumas economias avançadas. A atividade produtiva norte-americana não cai. E as fumaças emanadas do Fed são de que os juros podem subir neste ano. Os Estados Unidos, quem diria, estão fazendo swap cambial para segurar o iene, que está derretendo – o Japão tem uma relação dívida bruta/PIB de 200%. Mas o que pega mesmo é o duo das eleições com o divórcio do fiscal e do monetário. O PIB vai bem, muito obrigado. O resultado do ano poderá superar os 3%, quase o dobro da previsão do início do ano. Mas inflado pelos gastos do governo até a alma. Quanto às eleições, elas ainda trazem como carregamento a “inflação trumpista”. As tarifas, sanções e ofensas notoriamente de caráter ideológico de Donald Trump afetam as expectativas da pior forma. E há quase garantia de que elas continuarão. A dúvida é a intensidade: se a manifestação pró-candidatura de Flávio será mais agressiva ou gradual (Leia aqui).
As instituições financeiras estão apostando que o Copom vai reduzir os juros para 13,75%. Seria um “dovish covarde”, também pautado pelo prolongamento do horizonte relevante da política monetária para prazos mais longos. O RR acha que os 14% dão para equilibrar a gangorra eleitoral e a plasticidade do monetário e do fiscal. Contudo, o gostinho do “quero mais” na conjuntura somente parece uma brisa, mas é um sopro de alívio muito maior do que diz o percentual. E o BC ainda poderá alegar que permanece austero e independente. Dá para dizer que estamos no imperativo do contraditório. Tudo piorou? Nem tudo. Mas continuamos onde estávamos. Agora é aguardar a ata da reunião do Copom, no dia 11 de agosto, que poderá colocar algum facho de luz na cegueira macroeconômica.
Economia
O que o Boletim Focus não diz (Aliás, quando diz?)
21/07/2026- [addtoany]
Apesar das projeções dos principais indicadores macroeconômicos do Boletim Focus, divulgado nessa segunda-feira, caminharem a passos de cágado – o que não chega a ser uma novidade -, nos departamentos de pesquisas das instituições financeiras os cenários para o futuro não andam tão mornos assim. Na área do câmbio, inflação e juros, as estimativas seguem quase inalteradas. É como se: a possibilidade de mais tarifas comerciais tivesse se esfumaçado; o impacto da queda das exportações para os Estados Unidos não contasse sequer um miligrama; a declarada disposição da dupla Trump/Rubio de manter em permanente fricção o ambiente político dentro do Brasil tivesse sumido – o episódio da aprovação do greencard para Eduardo Bolsonaro parece dizer o contrário; o câmbio fosse um ente à parte; a inflação não sofresse o impacto do dólar e a virtual vitória de Lula não tivesse impacto em nenhum indicador antecedente. Do lado do câmbio e da inflação, por enquanto a boa notícia é que o Focus não capturou a proposta do programa de governo de Lula, que promete controle de capitais e aumento do salário-mínimo. Mas, na próxima rodada do Boletim, ela poderá ser levada em conta com uma mudança um pouco mais acentuada nas projeções. Ou não, já que o Focus está tão desmoralizado que pode manter suas estimativas por saecula saeculorum, amém.
O coordenador do programa de governo Lula, o ex-presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli, também anunciou intenções de ajuste fiscal. Mas praticamente nada pelo lado da despesa. Jogou na mesa cartas nas quais ninguém acredita: parte do equilíbrio das contas públicas virá pelo lado das emendas parlamentares e dos juros. Mesmo que ninguém leve fé no Focus, o Boletim projeta uma Selic de 14% para o fim deste ano. Com o cenário que se apresenta mais à frente, talvez seja o único quesito no qual se deva acreditar no oráculo banguela. Nesse caso, teríamos o Desenrola 3, a missão. Ah, mais um dado que chama a atenção: o Boletim prevê um PIB de 1,99% em dezembro, e o FMI corrigiu sua projeção para 2,4%. Se o Fundo estiver certo, continuaremos tendo crescimento, emprego e renda elevados. Mas também uma inflação mais alta, um provável ciclo de juros elevados mais duradouro e um descontrole fiscal sem precedentes.
Em 2027, uma vez reeleito, Lula não poderá continuar jogando dinheiro de helicóptero em cima da população. Virada a página dos gastos eleitorais, o choque fiscal será inexorável. A verdade é que o Focus erra quase sempre. No ventre das casas bancárias as opções não são tão monocórdicas. Mente-se muito menos e há inteligência macroeconômica
Economia
É o câmbio, estúpido! Dólar pode ser a chave para a queda da inflação
1/07/2025- [addtoany]
Quem afirma que existe um consenso na diretoria do Banco Central em torno da ideia de que ainda haverá muito sofrimento no biênio 2025/26 para deixar a economia um pouco desentortada quase acerta. Quase. Uma das autoridades do BC considera bastante razoável a existência de um cenário alternativo para a economia, dependendo das condições políticas e notadamente do FED, que aparentemente reverteu sua disposição de elevar as taxas de juros – sim, é Donald Trump quem está dominando indiretamente a política econômica do Brasil. Mas o que têm a ver os alhos com bugalhos. É o câmbio, estupido! É por essa via que a inflação pode cair com o povo comendo a preços mais baratos; com os juros cedendo; com aumento dos investimentos, da atividade produtiva e do emprego; com redução ou estabilização da dívida interna bruta, que virou instrumento de terrorismo. Portanto, juros declinantes, para efeito do passivo bruto, têm um impacto maior do saldo primário previsto, sem com isso dizer que os dois não devam andar juntos. A recomendação do FMI para geração de um superávit primário prolongado de 3% é completamente inviável. Os juros é que têm que cair. Para efeito de registro cada um ponto percentual de aumento da dívida bruta interna representa um déficit de R$ 50 bilhões.
O deep throat do colegiado do BC mantém um olhar mais aberto para a política monetária norte-americana do que para o comportamento no curto prazo dos preços no Brasil. Há indicadores de que a carestia está amolecendo. O último resultado do IGP captou um índice bem mais baixo. O Boletim Focus aponta uma inflação algumas telhas acima do telhado, em 4,50%, e uma Selic de 12,50% no fim de 2026. O Focus costuma errar para cima. Se o câmbio ajudar, o que tudo leva a crer, todos os indicadores fundamentais da política macroeconômica descem a rampa. Nesse ambiente, a política fiscal não seria tão histérica e daria mais tempo para o governo não se restringir à estratégia tapa-buraco do arcabouço fiscal e implementar medidas “semi estruturantes” em 2026, tais como alterar os targets de inflação e a meta do resultado primário. Em alguns aspectos, mudar o próprio arcabouço fiscal.
No caso do centro da meta, há mais de quatro anos se discute se ele não deve subir de 3% para 4%. Esse seria o primeiro movimento no raiar de 2026. É um cenário cheio de condicionantes, a começar pelo câmbio e perpassando a judicialização da política fiscal, mas que permitiria reduzir a taxa de juros, ainda em 2025, de 15% para 14% ou até um pouquinho mais para baixo. E os juros, não só pelo efeito restritivo em toda a economia, têm um impacto enorme sobre as expectativas. Nesse ambiente, menos tensivo, mesmo levando em conta o período eleitoral, seria mais confortável conduzir discussões estruturantes como desvinculação da educação e saúde da arrecadação, desindexação do salário-mínimo dos benefícios salariais, revisão dos incentivos fiscais, tributação dos mais ricos, e outras questões que vão de polêmicas a explosivas. É quase um universo paralelo.
Análise
BC e Fazenda poderiam ter corrigido o regime de metas de inflação não fosse sua leniência
21/06/2024- [addtoany]
Economia
Não seria o caso de expurgar a catástrofe climática da inflação?
16/05/2024- [addtoany]
O dinheiro gasto na recuperação do Rio Grande do Sul já deixou de ser um problema fiscal, pelo menos de ordem contábil. Assim como os gastos extraordinários com a tragédia climática serão aparteados do cálculo da meta fiscal, outras flexibilizações similares povoam discussões no governo. Uma medida igualmente compreensível para a circunstância seria expurgar da inflação os efeitos da catástrofe. Trata-se de uma situação absolutamente extraordinária e como tal deveria ser tratada, para conter um efeito cascata negativo sobre reajustes indexados à inflação. O IPCA deságua diretamente no salário mínimo, na Previdência e nos contratos de aluguel, por exemplo. Há ainda a hipótese do Ministério da Fazenda aumentar os subsídios para além dos já definidos em relação à cesta básica. A queda da inflação no mês passado foi anterior à catástrofe no Rio Grande do Sul. Portanto, não leva em consideração as consequências do cataclismo no choque de oferta – que deverá forçar a uma importação de alimentos ainda não planejada – e redução expressiva dos itens produzidos pela indústria gaúcha. Há ainda o fator percepção da população, que impacta diretamente na visão sobre a alta de preços. É como se os preços até caíssem em função das medidas emergenciais do governo, e os consumidores, influenciados pelo cenário, não reconhecessem a queda.
Essa é uma variável que não pode ser desprezada de forma alguma. A percepção é algo fundamental. Ela rivaliza com a própria realidade, vide a mais recente pesquisa da Quaest. Na amostragem consultada, 43% disseram acreditar que a taxa de desemprego subiu, o que, sabe-se bem, não é verdade – pelo contrário, o emprego subiu razoavelmente. Mas vai dizer a essas pessoas que elas estão erradas. Bem, é uma outra volta no parafuso. Vai e vem, voltamos à questão da comunicação do governo. Se ela não for indutiva e bem-feita, estão dadas as condições para a oposição incendiar as redes sociais.
Análise
Apesar do “risco petróleo” sobre a inflação, queda da Selic poderia ser maior
9/04/2024- [addtoany]
Bendita a hora que o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, conseguiu “mudar a meta de inflação sem mudar a meta de inflação”, com o regime de meta contínua. Caso contrário, o CMN (Conselho Monetário Nacional) já teria alterado o centro da meta de 3% para um patamar maior, com impacto sobre a credibilidade da política monetária. Há uma possibilidade de a inflação pipocar devido ao risco iminente de um choque na oferta do petróleo. De acordo com análise do Radar do Banco Itaú, se tornaram realidade “a extensão de cortes voluntários na produção de petróleo da OPEP+, além do maior prêmio de risco devido ao cenário geopolítico (na Ucrânia e em Israel), que causam temores de redução de oferta. Isso porque os ataques ucranianos nas refinarias russas reduzem a capacidade de produção de petróleo (o risco de uma escalada implicaria uma subsequente disrupção de mais refinarias). Além disso, há o risco de o Irã, que produz o equivalente a 3% da produção global, reduzir a oferta apor conta na escalada no Oriente Médio).”
Mesmo sem a batata da oferta das commodity ter assado, o petróleo atingiu o patamar mais alto desde outubro do ano passado, para cerca de US$ 90 o barril (Brent) no início deste mês. Do lado da demanda, o fortalecimento da economia global, o resiliente crescimento americano, além da recuperação em andamento na China, são fatores que jogam para cima os preços da commodity. By the way: segundo os dados do BC, o petróleo é a variável que tem mais efeito sobre a inflação no Brasil, seguido pelas commodities agrícolas. O cálculo aproximado é que um aumento de 10% no preço do barril de petróleo tem impacto de 0,66 ponto percentual no IPCA, após quatro trimestres, segundo estimativas apresentadas no último Relatório Trimestral de Inflação.
Amanhã, quando o índice de inflação for divulgado, é possível que a alta do petróleo já tenha provocado algum resíduo de aumento na medição da carestia. O resultado de abril confirmará ou não com maior consistência essa previsão, lembrando que o preço da gasolina já está com uma defasagem de 17% em relação aos valores de venda internacionais. Mas, com a santa meta contínua de inflação, o problema poderia ser mitigado e os juros prosseguirem sua marcha de queda a um patamar mais razoável em relação às taxas cobradas no exterior. Muito provavelmente, com um novo presidente do Banco Central.
O debate sobre a majoração da meta e o nível das taxas de juros necessárias para atingir o target esteve presente durante os dois últimos anos do governo Bolsonaro e parte do primeiro ano do governo Lula III. Já estava dado pelo mercado que a meta definida seria modificada. A mágica de Haddad foi a instituição da “meta contínua”. Explica-se a engenharia: na nova metodologia, o BC terá de perseguir a manutenção da inflação dentro da meta por prazos mais flexíveis e mais longos do que o calendário gregoriano. Assim o sistema de metas deixa de ter um “ano-calendário”. Mas o novo regime não é tão flexível a ponto de virar uma bagunça.
O ministro Fernando Haddad disse que o horizonte para o cumprimento da meta continua, na prática, será de 24 meses. Parece um estelionato monetário, mas é o contrário. Além do Brasil, somente Filipinas, Indonésia, Tailândia e Turquia usavam o calendário anual conforme nosso regime anterior à meta contínua. O motivo de toda essa rememoração é que, com Roberto Campos Neto na proa do BC, a promessa de baixar a Selic com mais intensidade foi contida. Ou seja: a sinalização de um ciclo maior de baixa dos juros foi suspensa. Com a meta contínua, talvez essa tenha sido uma medida demasiadamente conservadora. De qualquer forma, se o sistema de meta anual fosse mantido, Campos Neto teria acertado com o seu “devagar com o andor”, devido ao perigo de um choque do petróleo que se avizinha. A preocupação do presidente da autoridade monetária está ligada a algo a que o BC tem quase ojeriza: baixar os juros e, logo depois, precisar elevar as taxas rapidamente por razões que não estavam no script. De toda a maneira, atualmente analistas do mercado somente acreditam que a inflação ficará no centro da meta em 2025 caso a Selic saia dos atuais 10,75% e chegue a 9% no fim de 2024 e a 8,5% no ano que vem. Um cenário difícil.
Destaque
Mudança da meta de inflação volta à pauta no Ministério da Fazenda
5/01/2024- [addtoany]
“A meta vinha cantando alegremente…” Que nada! O secretário de Política Econômica, Guilherme Mello, reabriu os trabalhos para fundamentar um novo ataque aos 3% da meta de inflação. Mello encomendou papers a economistas acadêmicos e matemáticos para proporem um sistema de metas que não seja draconiano e tenha alguma cientificidade. Por incrível que pareça, o argumento para o target de 3% parece ser só justificado por ser próximo da média dos países desenvolvidos, do G7, da América Latina, seja que amostragem for. É claro que ela é balizada em algum ponto pela política monetária, nível da inflação, atividade econômica etc. Hoje, o próprio Roberto Campos Neto considera que o target foi um “pouquinho” maior do que o necessário.
O fato é que os esquálidos 3% poderão manter a taxa de juros na faixa mínima de 7% a 8% o governo Lula inteiro. O mercado, aliás, já precificou isso. A escolha da meta pelo BC às vezes parece ser puramente idiossincrática. Alargar a meta em meio ponto ou um ponto percentual permitirá que ela seja cumprida sem as já banalizadas cartas de justificativas da autoridade monetária ao Congresso Nacional ou a invenção de alguma PEC para embutir um casuísmo qualquer. Na Fazenda, a crítica é que, para os analistas, parece existir somente o resultado primário. O resto não interessa. É como se a relação dívida/PIB não fosse um indicador de custo relevante e sujeito a qualquer poeira de aumento nos juros; ou que lidar com choques de oferta, cada vez mais frequentes no mundo, fosse uma atividade pueril e não puxasse ainda mais para cima taxas já altas. Manter os juros lá no alto para buscar um percentual insustentável de inflação, nesses quatro anos, vai comer quatro ou cinco p.p. do PIB, pelo menos no acumulado até 2026. Vai atrapalhar o propósito de estabilização, quiçá redução, da relação dívida/PIB, já que o resultado primário tende sempre a ficar aquém do projetado.
Embora o Ministério da Fazenda não queira comentar oficialmente a medida, na conversa que o RR teve com fonte da Pasta, tudo indica que o assunto voltará ao CMN quando os resultados da política econômica estiverem mais robustos e a mudança não pareça mais uma confissão de fracasso do que um aperfeiçoamento. Uma boa aposta é que isso ocorra em meados do ano que vem. Essa mudança terá, com toda certeza, o apoio declarado do presidente da República. Tomara. Esse meio pontinho de redução da meta vai fazer uma diferença nada desprezível no futuro, evitando elevações desnecessárias da Selic. Questionado, o Ministério não quis comentar oficialmente a medida.
Economia
Recessão econômica bate à porta do governo Lula
28/02/2023- [addtoany]
Persistência dos juros altos; resiliência da inflação; dúvidas em relação ao compromisso fiscal do governo; queda na geração de emprego; prolongamento da guerra entre Rússia e Ucrânia; volatilidade – com viés de baixa – no preço das commodities; retração do investimento e forte desaceleração do mercado de crédito devido à inadimplência do consumidor em geral; e o impacto da fraude ocorrida nas Lojas Americanas. Estas são somente algumas das dificuldades que podem levar o país a uma estagflação ou mesmo a uma recessão em 2023. O RR conversou com dois analistas do mercado que apresentaram, em off the records, projeções para o crescimento da economia neste ano diferentes daquelas vocalizadas por ambos na mídia e enviadas, segundo eles, ao Boletim Focus. Não seria de se estranhar se essas contradições fossem práticas comuns no mercado.
O Focus vem aumentando recorrentemente as previsões para o PIB de 2023, sem que se encontre motivações maiores para o crescimento do Produto Interno – a última projeção, feita ontem, é de um PIB de 0,84% contra 0,80% na semana passada. Aliás, pelo contrário: as respostas da economia global e os índices de confiança de consumidores e empresas já sinalizam na direção inversa. Há ainda a probabilidade de que o efeito contracionista dos juros não se tenha dado de forma mais intensa, na medida em que existe a dúvida sobre o prazo da sua “inercia natural”. Pode aparecer pela frente uma fatura mais alta para a atividade produtiva pagar a conta. Para somar no pacote de problemas, agregue-se o consenso de que a performance do comércio, principal empregador do país, será bem mais baixa em relação ao ano anterior.
Os cenários para os principais indicadores macroeconômicos, mantidos nas internas dos departamentos de research das instituições financeiras, conduzem a uma direção contrária ao que aponta o Boletim do BC. A “mediana” das estimativas mais conservadoras dos analistas ouvidos pelo RR, com 30% de probabilidade de ocorrência, é de um PIB de 0% com viés de baixa. Uma recessão, portanto, estaria batendo na porta do país no primeiro ano do governo Lula, sem que medidas mais firmes para correção dos desajustes da economia sequer tenham sido cogitadas. A reforma tributária é uma exceção, mas não se sabe se ela terá impacto de aumento arrecadatório, portanto restritivo para a atividade produtiva, ou será neutra, ou ainda expansionista.
A FGV, por exemplo, analisa o cenário econômico sem dourar a pílula. O último Boletim Macro da instituição prevê um crescimento marginal do PIB de 0,2% neste ano, beirando, portanto, a estagflação. A colunista Claudia Safatle, do Valor Econômico, chama a atenção para a dificuldade que o BC pode ter para reduzir a taxa de juros neste ano, a confusa discussão sobre a independência da autoridade monetária e o “risco André Lara Resende” – desdém em relação à dívida bruta/PIB e ao resultado primário -, todos fatores que dificultam visualizar um cenário mais favorável para o PIB neste ano. É difícil também antecipar como serão conduzidas as medidas de política econômica cercadas de assimetrias por todos os lados. Um exemplo: a redução dos juros. O Focus, que vê sempre um cenário mais amigável, projeta uma Selic de 12,75%, em dezembro de 2023 – difícil que dê algo abaixo dos atuais 13,75%, dizem os analistas ouvidos pelo RR. Mas digamos que, devido a pressões políticas e à própria asfixia provocada pelos juros nas alturas, o BC empurre a taxa para 12% ou mesmo 11%, no final do ano. É possível que nem Lula acredite nessa Selic tão baixa, em dezembro.
E se o BC desse esse cavalo de pau na taxa básica, reduzindo-a para percentuais mais baixos do que os citados acima, como é que ficaria o câmbio, uma das variáveis mais importantes para a formação da maioria os preços? A redução dos juros, com os quais o BC teria viciado o mercado, expulsaria o carry trade? É esse ingresso do capital externo “moteleiro”, conforme a alcunha do ex-ministro Delfim Netto, que hoje estaria segurando o dólar para que ele não escale os R$ 5,50 ou mesmo R$ 6 (hoje a cotação do dia foi de R$ 5,20). O câmbio, devido a sua correia de transmissão sobre os preços, puxaria a inflação para cima. Aliás, somente o efeito da reoneração dos preços dos combustíveis, confirmada ontem pelo governo, injetará uma dose de pressão na carestia.
Pela ótica da atual diretoria do BC, que já incorreu em enormes idas e vindas, tais como baixar a Selic até dois pontos percentuais e depois realizar aumentos sucessos da taxa até os atuais 13,75%, os juros teriam de voltar a subir, mesmo que fosse um pouquinho. Isso se o “livro texto” fosse aquele seguido pela autoridade monetária até o momento. Essa gangorra dos juros não desce pela goela do setor produtivo, do governo e da área política em geral. Ela se soma às outras variáveis macroeconômicas em processo de erosão. O mais provável é um cenário pior do que aquele que se apresenta no Focus de ontem, para o PIB, os juros e a inflação.
Toda a inflação será perdoada?
2/06/2021- [addtoany]
O espaço para os gastos dentro do teto aumentará mais de R$ R$ 100 bilhões no próximo ano. Essa folga deve-se ao modelo de correção pela inflação de 12 meses até junho do ano anterior. Ou seja: por essa ótica torta, o teto redimiu a inflação, que passa a ser a variável capaz de viabilizar as condições fiscais para o investimento público. No ano passado, os gastos do governo tiveram um aumento iníquo de 0,46%, recorde em mediocridade. É o investimento que gera o emprego. Só que a inflação é um imposto que penaliza principalmente os mais pobres. Definitivamente, há algo nessa equação que não fecha.
Enigma do enigma do desconcerto monetário
23/01/2017- [addtoany]
Acertou Alexandre Tombini por ter dado, em 2015, a maior puxada da Selic, para 14,25% – por pouco não foi a 14,75% –, a viga mais pesada na edificação da atual ancoragem das expectativas inflacionárias.
Errou Alexandre Tombini por não ter baixado a taxa mais cedo, soltando em 2015 um pouco a carretilha da economia e evitando a brutal recessão do ano passado.
Errou Ilan Goldfajn porque manteve as taxas siderais mais tempo do que o necessário com o intuito de precipitar o recuo da inflação para a meta de 4,5% ainda em 2017, pagando o preço de praxe do desemprego, recessão, elevação da dívida bruta, entre outros fundamentos deteriorados.
Acertou Ilan Goldfajn, porque o seu BC focou intramuros uma meta de 4%, inferior à anunciada, de 4,5%, o que justificaria a política monetária ortodoxa de terra arrasada, que levou à maior recessão já assistida pelos brasileiros com mais de 90 anos, mas ancorou firmemente as expectativas inflacionárias.
Erraram Alexandre Tombini e Ilan Goldfajn, porque ignoraram o estado de dominância fiscal em que os juros muito altos são deletérios, produzindo as piores sinalizações para o fiscal e gerando uma resistência inercial à queda da inflação por conta da indexação que ainda grassa na economia.
Acertaram os dois economistas, pois com esse Fort Knox de reservas cambiais – US$ 376 bilhões – o Brasil não está em dominância fiscal nenhuma, e a política adequada era essa mesmo, ou seja, enquanto o fiscal não estivesse assegurado, o jeito era mandar a ripa nos juros, restringindo a atividade produtiva, salgando os salários e sangrando o emprego.
Erraram muito os dois, pois a meta poderia ser estendida, os juros, rebaixados e o target passaria ser a dívida bruta, uma política que pouparia o sacrifício de milhões de empregos.
Cartas para a Redação
Que fase!
21/12/2015- [addtoany]
Um fator a mais de pressão sobre os índices inflacionários: a estimativa de queda da colheita de trigo no Paraná já estaria em quase 20%. Não custa lembrar que, também por conta das chuvas, a produção no Rio Grande do Sul foi quase 35% menor do que o esperado.