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China prepara ofensiva em data centers no Brasil
21/08/2026- [addtoany]
O setor de data centers entrou definitivamente na cartografia de interesses da China no Brasil. Além do superlativo projeto do TikTok no Ceará, em parceria com a Casa dos Ventos e a Omnia/Pátria, estimado em mais de R$ 200 bilhões, Pequim está traçando novos passos para ampliar sua presença em infraestrutura de processamento e armazenamento de dados no país. O movimento faz parte de uma ofensiva muito maior. As gigantes chinesas de tecnologia vêm elevando agressivamente seus investimentos em inteligência artificial, nuvem e capacidade computacional. No Brasil, um dos instrumentos dessa nova investida deverá ser o Silk Road Fund, braço financeiro usado por Pequim em projetos estratégicos no exterior. Segundo informações que circulam no setor, um dos caminhos em análise seria a extensão da própria parceria com a Omnia. Controlada pelo Pátria Investimentos, a empresa é uma das maiores plataformas de infraestrutura digital do país. Ressalte-se que o Silk Road Fund e a gestora de recursos já são sócios em concessões rodoviárias no Brasil.
Há outros fios que se cruzam nessa grande marcha do armazenamento de dados. O negócio tem notória sinergia com outro importante investimento feito recentemente pelo Silk Road no país: a Aliança Energia. O fundo tornou-se sócio da BlackRock e da Vale na empresa de geração renovável. Não é uma coincidência menor. Pequim vem aproximando cada vez mais sua política de expansão da capacidade computacional da oferta de energia renovável e de sistemas de armazenamento. Data centers, geração e baterias começam a formar partes de uma mesma infraestrutura para a corrida da inteligência artificial.
São os novos tempos. Se a primeira fase da Belt and Road Initiative foi marcada pela construção de portos, ferrovias, rodovias e usinas no exterior, os projetos ligados à chamada Digital Silk Road passaram a ganhar espaço crescente. Redes de telecomunicações, fibra óptica, cabos submarinos, data centers e outras infraestruturas digitais tornaram-se novas prioridades de Pequim. É a Nova Rota da Seda em sua versão digital. O Brasil reúne uma combinação difícil de encontrar em outros grandes mercados emergentes: oferta abundante de energia renovável, escala de consumo, expansão acelerada da computação em nuvem e uma carteira bilionária de novos projetos de processamento de dados.
Data centers se tornaram mais um ringue da disputa geoeconômica entre Washington e Pequim. E os dois lados estão colocando cifras gigantescas nessa batalha. Nos Estados Unidos, o maior símbolo é o Stargate, projeto capitaneado por OpenAI, SoftBank e Oracle para investir até US$ 500 bilhões em infraestrutura de inteligência artificial em quatro anos. A primeira leva previa US$ 100 bilhões imediatos. Em setembro do ano passado, o programa já reunia quase sete gigawatts de capacidade planejada e mais de US$ 400 bilhões em investimentos previstos para os três anos seguintes. O governo Donald Trump passou a tratar essa expansão não apenas como investimento privado, mas como parte de uma estratégia de liderança tecnológica e de segurança nacional.
Do lado chinês, a resposta também é medida em dezenas de bilhões de dólares. A Alibaba anunciou cerca de US$ 53 bilhões para ampliar sua infraestrutura de inteligência artificial e nuvem em três anos, montante superior a tudo o que havia desembolsado nessas áreas na década anterior. A companhia já sinalizou que poderá ultrapassar essa meta. A Tencent, por sua vez, gastou US$ 11,7 bilhões somente em 2025 e prometeu acelerar os desembolsos em IA neste ano. ByteDance, controladora do TikTok, Baidu e outras empresas completam uma corrida chinesa por chips, centros de processamento, energia e modelos próprios.
Washington tenta levar essa disputa para fora de suas fronteiras. Em julho de 2025, a Casa Branca lançou um programa para estimular a exportação de pacotes completos de tecnologia norte-americana de IA. A lista inclui chips, servidores, aceleradores, sistemas de armazenamento para data centers, serviços de nuvem, redes e modelos de inteligência artificial. O objetivo declarado é ampliar a adoção mundial da tecnologia dos Estados Unidos e reduzir a dependência de países considerados adversários. A ofensiva ganhou uma estrutura adicional com a Pax Silica, iniciativa destinada a organizar uma rede de aliados em torno de semicondutores, minerais críticos, energia e infraestrutura de IA. Em março deste ano, Washington anunciou ainda um fundo inicial de US$ 250 milhões para apoiar ativos estratégicos dessas cadeias, com a intenção de mobilizar capital privado e soberano em escala muito maior.
A China, por sua vez, tenta ampliar internacionalmente o alcance de suas tecnologias, modelos e infraestrutura digital. A batalha, portanto, já não se resume a quem desenvolverá os melhores algoritmos. Estados Unidos e China disputam quem fornecerá chips, energia, capacidade de processamento, armazenamento, modelos e padrões tecnológicos para a infraestrutura digital do resto do mundo. É nesse tabuleiro que uma eventual entrada do Silk Road Fund nos data centers brasileiros ganha outra dimensão. O investimento deixaria de ser apenas uma diversificação do portfólio do fundo para se inserir em um movimento mais amplo de Pequim pela ocupação de posições na infraestrutura que sustentará a inteligência artificial e a economia digital nas próximas décadas. Para o Brasil, significa entrar por mais uma porta na disputa tecnológica entre as duas maiores potências mundiais.
Criado em 2014 para financiar a expansão da Belt and Road Initiative, o Silk Road Fund é um dos principais braços financeiros da estratégia geoeconômica de Pequim. O fundo conta com capital de US$ 40 bilhões e, até março deste ano, já havia assumido compromissos de investimento superiores a US$ 28,5 bilhões em mais de 70 países e regiões. Seu portfólio concentra-se em infraestrutura, energia, recursos naturais, cooperação industrial e serviços financeiros, com projetos espalhados pelo Sudeste Asiático, Sul e Ásia Central, Oriente Médio, Norte da África e Europa.