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O que precisa ser dito
Por que o Bradesco entendeu e vai liderar a era das infraestruturas de mercado do Século XXI
15/09/2026- [addtoany]
Manuel Matos, colaborador especial
1. O fato
Em 2026, a Bradesco Seguros passou a oferecer, dentro do seu aplicativo, uma área chamada Minhas Proteções. A descrição institucional é curta: uma carteira digital que reúne os seguros e os produtos de previdência complementar aberta do cliente em um único lugar, incluindo os contratados em outras instituições e compartilhados por meio do Open Insurance. Ao lado da visão consolidada, o cliente encontra dois comandos. Um traz os dados de outras seguradoras, mediante consentimento. O outro apresenta produtos do próprio grupo que possam complementar o que a pessoa já tem.
Dito assim, parece uma funcionalidade. Não é. É a primeira aplicação de mercado de massa, no Brasil, em que uma pessoa vê a sua vida securitária inteira em uma tela, sem pagar por isso e sem depender de que cada seguradora lhe dê acesso separadamente. Esse é o objeto deste ensaio: por que esse gesto, aparentemente modesto, indica que o Bradesco compreendeu antes dos demais a natureza da transformação em curso, e por que, cumpridas certas condições, é dele a posição para liderar o que chamo de era das infraestruturas de mercado do século XXI.
Declaro desde já o meu lugar. Não tenho interesses comerciais, diretos ou indiretos, no setor de seguros. Minha única atividade é a autoria de livros. Não tenho relação com o Bradesco. O que segue é análise, e a análise é favorável ao movimento porque o movimento responde à pergunta que organiza o meu trabalho: esta decisão melhora a capacidade da pessoa de compreender, acessar, escolher e exercer a sua proteção? Nos dois primeiros termos, a resposta já é sim. Nos dois últimos, ainda é não.
2. A tese que o fato confirma
No primeiro livro sustentei que a distribuição de seguros migra da intermediação para a infraestrutura. A intermediação é a relação entre pessoas que sabem e pessoas que precisam; a infraestrutura é o conjunto de registros, identidades, consentimentos e interfaces que permitem a uma pessoa saber por si o que tem, o que lhe falta e o que pode fazer a respeito. Quando a infraestrutura existe, o intermediário não desaparece, mas deixa de ser o único caminho até a informação, e a sua posição passa a depender do que ele acrescenta ao que a infraestrutura já entrega.
O segundo livro, em execução, descreve as camadas dessa infraestrutura: o registro das operações, a identidade e a certificação, o compartilhamento consentido e a camada cognitiva que converte dado em conhecimento útil para decidir.
O Open Insurance é a terceira camada. Foi construído entre 2021 e 2025 com um cuidado técnico que o mercado raramente reconhece: consentimento gerido pelo titular, revogação, redirecionamento entre aplicativos, certificação de jornadas, métricas de funil. A estrutura de governança declarou, no início de 2026, concluídas as entregas regulatórias e iniciada a fase de sustentação.
Durante três anos, porém, a infraestrutura ficou ociosa. Os consentimentos foram poucos. O diagnóstico corrente atribuía isso ao desinteresse do consumidor. O diagnóstico estava errado. O consumidor não consente com uma infraestrutura; consente com uma aplicação que lhe dê razão para consentir. A infraestrutura de mercado precede o mercado, e o mercado só nasce quando alguém com audiência a utiliza. É a sequência que a tese prevê, e é a sequência que o Minhas Proteções realizou.
3. Os quatro ativos
Por que o primeiro uso veio do Bradesco e não de uma insurtech, de uma seguradora especializada ou de uma corretora de grande porte? Porque o primeiro uso exige quatro ativos ao mesmo tempo, e poucos os reúnem.
O primeiro é a audiência. O banco encerrou junho de 2026 com 38,2 milhões de correntistas. Mais de 30 milhões de clientes já operam em modelo integralmente digital, e a direção financeira declarou a meta de aproximar esse número de 50 milhões até o fim do ano. Uma aplicação colocada nesse aplicativo não precisa conquistar usuários; precisa apenas ser encontrada por quem já abre a tela todos os dias.
O segundo é a fábrica. A Bradesco Vida e Previdência, a Bradesco Saúde, a Bradesco Auto/RE e a capitalização formam um portfólio de pessoas que compete em preço e em cobertura com qualquer outro do país. Quem agrega dados sem ter produto competitivo entrega ao cliente um mapa e nada mais. Quem tem produto pode responder ao que o mapa mostra.
O terceiro é o canal. A Bradescor, corretora do conglomerado, dá forma jurídica à intermediação sem que o cliente saia do ambiente do grupo. A própria página do Minhas Proteções diz que a contratação ocorre pelos canais digitais e, quando necessário, com o apoio de corretores credenciados, conforme o produto. O corretor está presente, mas a iniciativa é da plataforma.
A Resolução CNSP nº 493, de 17 de julho de 2026, que passa a vigorar cento e oitenta dias após a publicação de 21 de julho, confirma que esse arranjo cabe no regime da corretagem e não o altera. A norma define o corretor como o intermediário legalmente autorizado a angariar e promover contratos de seguro, exige que a corretora pessoa jurídica tenha corretor habilitado como diretor ou administrador técnico e veda que sócios, diretores e administradores da corretora mantenham emprego ou administrem seguradoras. A separação exigida é de pessoas, não de capital: nada impede que o controle da corretora e o da seguradora estejam no mesmo conglomerado. A resolução exclui expressamente do mercado de corretagem os agentes representantes das seguradoras, o que torna a corretora do grupo, e não a própria seguradora, o lugar jurídico da intermediação. E é silenciosa sobre canais digitais, agregadores, iniciação de serviços e remuneração além da hipótese de comissão não devida. O que ela reorganiza é o registro do corretor, a autorregulação por entidades com ao menos dez mil membros e a habilitação; a tela ficou fora dela.
O quarto é a licença. A Bradesco Seguros é participante do Open Insurance na condição de seguradora. Recebe dados e pode iniciar serviços por conta própria, sem necessidade de nenhuma figura intermediária nova. As sociedades processadoras de ordem do cliente, as SPOCs, foram criadas para dar a quem não é seguradora um caminho equivalente.
O Bradesco não precisa desse caminho.
Reunidos, os quatro ativos fazem do Open Insurance algo diferente do que foi desenhado. Ele foi concebido como infraestrutura de abertura, para reduzir a vantagem de quem já tinha o cliente. Nas mãos de quem tem audiência, fábrica, canal e licença, opera como infraestrutura de reconquista: o banco, que vinha perdendo espaço na distribuição de vida desde a estabilização da inflação, recupera a visibilidade sobre o que o seu cliente contratou fora, e recupera com o consentimento do próprio cliente.
4. O que o Bradesco entendeu
Cinco entendimentos distinguem o movimento de uma funcionalidade de aplicativo.
- O dado consolidado é o novo balcão.
Durante um século, o lugar da venda de seguros foi onde o cliente estava fisicamente: a agência, o escritório do corretor, a concessionária. Depois passou a ser onde o cliente estava digitalmente: o aplicativo do banco, o marketplace, o buscador.
O Minhas Proteções mostra o terceiro estágio: o lugar da venda é onde o cliente vê o que já tem. Quem apresenta a visão consolidada apresenta, na mesma tela, o que falta, e a oferta deixa de ser interrupção para ser resposta.
- O consentimento é o ativo, e o mérito o retém.
O consentimento no Open Insurance não é portável nem exclusivo. O cliente pode dar o mesmo consentimento a várias plataformas e comparar. O que faz uma pessoa manter o consentimento ativo em uma delas é a utilidade que recebe. O Bradesco entendeu que a disputa não é por capturar o consentimento, mas por merecê-lo continuamente, e que a granularidade das autorizações é o mecanismo pelo qual quem tem produto bom vence. Se a pessoa autoriza separadamente a visualização e a oferta, e escolhe autorizar a oferta, o funil é legítimo.
- A tela precede o produto.
O estudo recente de Francisco Galiza para a MAG Seguros, sobre vida individual como estratégia para corretores, modela uma corretora de automóvel que passa a oferecer seguro de vida à sua carteira e, ao fim de vinte anos, obtém receita de pessoas equivalente a 77% da receita de automóvel. O modelo depende de uma premissa: que ninguém chegue ao cliente antes do corretor. O agregador do banco chega antes, no momento do evento, com o dado. O Bradesco entendeu que quem tem a tela decide a captação, e que o produto, por melhor que seja, chega depois.
- A interoperabilidade é o motor.
A Resolução Conjunta BCB/Susep nº 5, de 2022, disciplina a interoperabilidade entre o Open Finance e o Open Insurance mediante consentimento do cliente. O banco já vê, no Open Finance, a renda, o financiamento imobiliário, o nascimento de um dependente pela mudança de despesas, a saída de um emprego pela interrupção do salário. Cada um desses eventos corresponde a uma necessidade de proteção que a literatura atuarial descreve há décadas como ciclo de vida. O Minhas Proteções coloca a visão securitária ao lado da visão financeira, e o cruzamento das duas converte o ciclo de vida de ilustração em gatilho.
- Compreender e acessar vêm antes de vender.
É o entendimento mais fino, e o que mais aproxima o movimento da minha pergunta orientadora. A vitrine de produtos existe, mas está subordinada à visão consolidada. O cliente chega para ver, não para comprar. O Bradesco apostou que a pessoa que compreende a sua situação e acessa as suas apólices com facilidade compra mais, e compra melhor, do que a pessoa abordada por um vendedor. É a inversão do ditado “seguro é vendido, não comprado”, que o próprio estudo Galiza reconhece como superado e que o mercado continua a praticar.
5. Por que vai liderar
Liderança, aqui, não é participação de mercado. É a posição de quem define o padrão que os demais seguirão. E o padrão já está sendo definido.
A trajetória que a arquitetura permite tem quatro fases. A primeira, atual, é o painel: ver tudo e comprar do grupo. A segunda é a comparação com gatilho: o aplicativo sabe que a apólice de vida de outra seguradora vence em sessenta dias e apresenta a alternativa própria. A terceira é a iniciação com um toque, cruzada com o Open Finance. A quarta é a camada agêntica: a pessoa não compra seguro, autoriza um agente a mantê-la protegida ao longo do tempo. Nenhuma dessas fases exige norma nova para ser tecnicamente possível; as duas últimas exigem, para serem boas para a pessoa, as condições que discuto adiante.
O seguro de vida individual é o produto ideal para esse percurso. Os prêmios de seguros de pessoas somaram R$ 78,8 bilhões em 2025, segundo a Fenaprevi com base nos dados da Susep; 49% desse total está em seguros de vida, individuais e coletivos, 27% em prestamista e 12% em acidentes pessoais, e o vida individual foi, depois de doenças graves, o produto que mais cresceu no ano, com 14%. Na decomposição do estudo Galiza, o vida individual responde por cerca de 27% do segmento, o que corresponde a pouco mais de R$ 21 bilhões anuais. A subscrição se apoia em dados que o banco já tem. O prazo é longo e as interações são poucas. A receita é recorrente. Os gatilhos de contratação estão no fluxo bancário. A “aposentadoria” que o estudo Galiza promete ao corretor sobre uma carteira de vida, isto é, a renda que se mantém por anos com pouca manutenção, migra para o balanço de quem opera a tela.
Os demais conglomerados com banco e seguradora têm os mesmos quatro ativos e o mesmo incentivo. Seguirão. Mas quem cria a primeira aplicação útil cria também os padrões de fato: como o agregador rotula os produtos, como apresenta a comparação, o que chama de lacuna de proteção. Os outros herdarão esses padrões, ou terão de explicar ao cliente por que fazem diferente. E a disputa entre eles não se decidirá no seguro, mas na conta bancária principal: a pessoa consolidará as suas proteções no aplicativo que já usa para o resto da vida financeira.
Quem não tem os quatro ativos fica em posição difícil. As seguradoras especializadas em pessoas têm fábrica e produto, mas não têm tela, e a resposta racional que lhes resta é mobilizar corretores, como faz o estudo Galiza. Os corretores independentes, por sua vez, não adotaram a SPOC como via de acesso ao Open Insurance; o mercado se limita a duas sociedades credenciadas, sem adesão da categoria, e o credenciamento está em revisão pelo grupo de trabalho da Susep instituído pela Portaria nº 8.442/2025, prorrogado por mais um ano pela Portaria nº 8.575/2026. A Resolução CNSP nº 493/2026, que reorganiza a categoria, não trata do tema. Enquanto essa revisão não termina, a iniciação no sistema é, na prática, prerrogativa de seguradoras. A carteira do corretor deixa de ser defensável na renovação a partir do momento em que o agregador do banco vê a apólice e o vencimento.
Isso não é concentração de mercado. Cinco grandes grupos, mais a Porto e a Tokio, desmentem qualquer leitura nesse sentido, e o regulador não tem razão para tratar o cenário como problema concorrencial. O que existe é assimetria de canal, resultado de investimento e escala. E assimetria de canal, quando o consentimento é granular e o produto é bom, é vantagem por mérito.
6. O que a liderança exige para durar
Defendo o movimento. Defendo-o porque responde à pergunta orientadora e porque é operado por um conglomerado sólido, capaz de sustentar o que promete. Mas solidez é condição, não demonstração. A centralidade da pessoa se demonstra por resultado observável: o que ela consegue compreender, acessar, escolher e exercer na tela. Os dois primeiros degraus estão cumpridos. O terceiro está parcialmente cumprido, porque a escolha ocorre dentro do catálogo do grupo. O quarto, o exercício de direitos sobre apólice de terceiro a partir do agregador, ainda não é verificável pela página institucional. Cabe esperar que evoluam, e as razões para esperá-lo são as mesmas que explicam o movimento: quem investiu para colocar a pessoa diante da sua vida securitária inteira tem interesse em que ela possa agir sobre ela.