Bamko – Relatório Reservado

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Reestruturação do Habib’s esbarra em trava bancária e cerco de credores

28/07/2026
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O Habib’s terá de subir uma ladeira íngreme para levar adiante a sua reestruturação financeira. Não faltam obstáculos para a renegociação do passivo de R$ 312 milhões. Na semana passada, o Grupo Gennius, controlador da rede de fast food, conseguiu suspender por 60 dias parte das cobranças e execuções, mas a proteção concedida pela Justiça está longe de assegurar as condições necessárias para um acordo. O primeiro e mais imediato problema está nas travas bancárias. O Grupo Gennius pediu ao juiz autorização para movimentar recebíveis e aplicações financeiras cedidos fiduciariamente às instituições financeiras. A solicitação foi negada. Com isso, os bancos poderão continuar retendo recursos que entram no caixa da companhia para amortizar os contratos garantidos. A decisão atinge o ponto mais sensível da reestruturação. A proteção judicial suspende atos de cobrança e execução, mas não impede que os bancos se apropriem dos fluxos oferecidos em garantia. Na prática, o Habib’s ganhou uma pausa contra determinados credores sem recuperar o domínio sobre uma parcela relevante das receitas geradas diariamente pelas lojas. Procurado, o Grupo Gennius não se manifestou.
O efeito é especialmente grave porque a maior parte da dívida está concentrada justamente no sistema financeiro. Dos R$ 312,4 milhões declarados pelo Grupo Gennius, mais de R$ 300 milhões corresponderiam a obrigações bancárias. Portanto, os credores com maior peso na reestruturação são também aqueles que mantiveram o mecanismo mais eficaz de retenção do caixa. A blindagem judicial pode impedir penhoras, bloqueios ou execuções, mas não interrompe necessariamente a retenção contratual dos recebíveis. O dinheiro não chega a ficar disponível para a companhia. É direcionado aos bancos antes que possa ser utilizado para financiar estoques, salários, aluguéis e outras despesas da operação. O grupo entra, assim, na mediação com uma assimetria importante. Precisa convencer os bancos a conceder carência, alongar vencimentos ou liberar parte dos recebíveis, mas são essas mesmas instituições que continuam recebendo por meio das garantias. Sem uma pressão financeira imediata equivalente, os bancos têm menos incentivo para aceitar rapidamente uma renegociação profunda.
O segundo obstáculo agrava o primeiro. Durante o período de proteção, os novos fornecimentos essenciais deverão ser pagos à vista. A Justiça preservou o abastecimento das redes em relação às dívidas antigas, mas impediu que o conglomerado utilize a tutela para aumentar o passivo com fornecedores. O Habib’s terá, portanto, de sustentar centenas de restaurantes pagando imediatamente por carnes, farinha, queijos, bebidas, embalagens e demais insumos, ao mesmo tempo que parte de suas receitas continua retida pelos bancos. A companhia perde o crédito comercial justamente quando permanece privada de uma parcela do caixa.
Essa combinação pode tornar a operação mais apertada durante a própria tentativa de salvá-la. O fornecedor que anteriormente concedia prazo passa a exigir pagamento imediato. O banco, por sua vez, mantém a retenção automática dos recebíveis. Entre uma ponta e outra, sobra menos dinheiro livre para manter as lojas abertas.
A decisão judicial preservou ainda cláusulas de vencimento antecipado em contratos e obrigações que não estejam sujeitos a uma eventual recuperação judicial. Isso significa que a suspensão não alcança necessariamente todo o passivo. Determinados credores poderão sustentar que seus créditos, garantias ou contratos permanecem fora do perímetro da tutela. A disputa sobre quais dívidas estão ou não protegidas tende a consumir parte dos 60 dias concedidos para a negociação. Em vez de discutir apenas descontos, juros e prazos, o Grupo Gennius poderá ter de enfrentar controvérsias preliminares sobre a natureza de cada crédito, a validade das garantias e a abrangência da decisão.
O terceiro grande obstáculo está na extensão da blindagem. A tutela beneficia 174 empresas e pessoas físicas, incluindo sociedades operacionais, holdings, empresas imobiliárias, cozinhas centrais, restaurantes e integrantes da família Saraiva. A amplitude do pedido transforma a reestruturação em um problema societário e patrimonial muito mais complexo do que a renegociação de uma única companhia. A Justiça e os credores precisarão compreender como essas sociedades se relacionam, quais delas concentram os ativos, onde foram contraídas as dívidas e quais empresas prestaram garantias umas às outras. Também será necessário identificar se houve circulação de recursos dentro do conglomerado e em que medida as sociedades dependem operacionalmente do mesmo caixa.
O Ministério Público já colocou esse perímetro sob escrutínio. O órgão pediu documentos destinados a comprovar a integração operacional, financeira e patrimonial da Estância Santa Edina ao Grupo Gennius. Embora a exigência conhecida recaia especificamente sobre essa sociedade, o questionamento expõe uma vulnerabilidade mais ampla do pedido. A inclusão de uma empresa na proteção não decorre apenas da existência de sócios ou controladores comuns. O grupo terá de demonstrar que há uma integração efetiva e que a sociedade participa da estrutura econômica cuja preservação é pretendida. Caso contrário, credores poderão contestar o uso da tutela para proteger ativos ou empresas sem relação direta com a crise operacional. O problema se torna ainda mais delicado com a presença dos acionistas controladores Alberto Saraiva e Belchior Saraiva Neto entre os requerentes. A inclusão das pessoas físicas indica que a crise pode alcançar obrigações garantidas diretamente por integrantes da família, por meio de avais, fianças ou outras garantias pessoais. Os documentos publicamente disponíveis ainda não permitem dimensionar essas garantias. A proteção aos controladores, no entanto, sugere que a negociação não se limita aos CNPJs que exploram os restaurantes. Há um possível entrelaçamento entre as dívidas corporativas e o patrimônio dos administradores e acionistas.
Esse ponto deverá ser explorado pelos credores. Eles poderão questionar quais contratos receberam garantias pessoais, quais bens estão vinculados às obrigações e por que os controladores precisam ser protegidos juntamente com as empresas. A resposta poderá alterar a correlação de forças nas negociações. A estrutura pulverizada também dificulta a elaboração de um eventual plano de recuperação judicial. Será preciso decidir quais sociedades entrariam no processo, se os ativos e passivos seriam tratados de forma conjunta e quais credores poderiam cobrar apenas de uma empresa ou de várias empresas do grupo. Uma consolidação ampla favoreceria uma negociação centralizada, mas poderá encontrar resistência de credores que contrataram com sociedades mais solventes ou que possuem garantias específicas. Esses credores não terão interesse em ver ativos de uma determinada empresa utilizados para cobrir dívidas de outras integrantes do conglomerado.
O cerco judicial ao Habib’s já começou. A Bamko Importação, Exportação e Comércio de Brindes, que teria aproximadamente R$ 4,2 milhões a receber, move uma ação contra o Grupo Gennius, a Allpasta e réus ligados à família Saraiva. O processo tramita no Tribunal de Justiça de São Paulo sob o número 4132197-31.2026.8.26.0100. A cobrança mostra que o conflito com fornecedores já havia ultrapassado a fase das conversas privadas. A pressão chegou à Justiça e não ficou restrita a uma única empresa operacional. A presença de sociedades e pessoas ligadas aos controladores entre os réus poderá revelar a existência de garantias cruzadas ou compromissos assumidos fora da companhia diretamente responsável pela compra. O processo da Bamko poderá funcionar como uma radiografia da deterioração financeira do grupo. Os documentos deverão indicar quando as obrigações deixaram de ser pagas, quais instrumentos foram utilizados para renegociá-las e que garantias foram exigidas pelo fornecedor.

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