Política monetária se equilibra na gangorra entre inflação e eleições – Relatório Reservado

Economia

Política monetária se equilibra na gangorra entre inflação e eleições

  • 7/08/2026
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A próxima reunião do Copom será decisiva para medir a real sensibilidade do Comitê em relação ao risco inflacionário do país. O mercado precificou certo a queda dos juros de 14,25% para 14%. Não foi uma decisão tão fácil quanto parecia, porque a inflação aponta um dedinho para cima, e os preços dos alimentos para consumo dentro de casa subiram. A calibragem da próxima reunião determinará se há um ciclo previsível de baixa da Selic ou se os 14% serão mantidos. O RR aposta na “queda de Pirro” dos juros, o que consagrará o viés político da decisão monetária. Vá lá, digamos que ela decline 0,25 ponto percentual. Ou seja, a taxa estaria influenciada pela bipolaridade do cenário eleitoral e do impacto do gostinho de “quero mais queda da Selic” por parte das empresas, que vivem um ambiente de quebradeira. 

As variáveis de risco a serem acompanhadas pelo BC têm aumentado em número e em potencial explosivo. Os técnicos do banco precisam ser polifrontes para olhar todos os lados e ângulos. O político e o monetário sempre estiveram indexados. Não há dúvida sobre isso. Mas, neste 2026, essa combinação está superando o inesquecível 2002, na primeira candidatura vencedora de Lula, quando o atual presidente foi obrigado a renegar tudo o que disse antes para acalmar o mercado. Caso contrário, não seria eleito. Na atual conjuntura, Lula está entregando o receituário do mercado, no campo monetário, mas encarnou Dilma Rousseff, no fiscal hiperbólico. Pode-se dizer que as dificuldades aumentaram – a começar pelo fator Bolsonaro, inexistente à época.  

Os juros – que, reza a Curva de Phillips, têm de ser altos para derrubar a inflação – foram elevados. Venceu a ortodoxia? Mais ou menos. Tudo indica que subiram demais para uma inflação que ficou meio morna e não aliviou muito o bolso roto da população. As empresas que clamavam por essa política monetarista estão ingressando no referido modo do “queremos menos Selic” na base do desespero. Segundo os dados do Monitor RGF BizDoc, a recuperação judicial, que era um expediente usado basicamente pelas companhias de maior porte, alcançou também as microempresas. Estas tiveram um crescimento do estoque de 6,2% no primeiro semestre. Em 12 meses, a alta acumulada é de 21,2%. Já o volume de falências continua em um ritmo antilulista. No primeiro semestre deste ano, mesmo com a colaboração creditícia expressiva do governo, foram 66 pedidos. Parece pouco, mas não é. O estoque de falências no país subiu para 2.798 empresas, alta de 2,4% em relação aos primeiros seis meses de 2025. Por trás de cada um desses reveses empresariais há um problema psicológico, um sentimento do não cumprimento do legado, a sensação inevitável de fracasso. São rancores que vão desaguar nas eleições. 

O fato de o desemprego não ter subido e ancorar a atividade econômica é, ao mesmo tempo, uma boia de salvação e uma dose de heroína na veia. A droga intoxica por meio das superdoses do gasto governamental. Vicia a economia com a permanente ameaça do estado de dominância fiscal, quando juros altos não reduzem a carestia. Assim, o fiscal tem de ser alto para segurar o crescimento. Mas, como o fiscal tem de andar junto com o monetário, na atual conjuntura, segundo o livro-texto, somente os juros contêm a inflação em alta. Só o fiscal caminha contra o vento, sem lenço nem documento. São linhas paralelas. E, se depender do candidato mais bem colocado nas pesquisas, são linhas que continuarão divergentes no seu governo. Além do monetário, no qual apita, e do fiscal, em que não apita, o BC também tem de olhar para o clima, um fator mais para o aleatório. O fenômeno do El Niño, que provoca chuvas intensas e secas extremamente danosas, já está no gatilho. Só não se sabe a data precisa em que vai explodir o preço dos alimentos in natura. Existem ainda as guerras, com seu efeito sobre o petróleo e o diesel e o encarecimento dos fretes e dos fertilizantes. O impacto deletério desses fatores pode ficar mais para frente das eleições, mas o mercado já os tem como indicadores antecedentes. 

Há também incertezas sobre a política monetária em algumas economias avançadas. A atividade produtiva norte-americana não cai. E as fumaças emanadas do Fed são de que os juros podem subir neste ano. Os Estados Unidos, quem diria, estão fazendo swap cambial para segurar o iene, que está derretendo – o Japão tem uma relação dívida bruta/PIB de 200%. Mas o que pega mesmo é o duo das eleições com o divórcio do fiscal e do monetário. O PIB vai bem, muito obrigado. O resultado do ano poderá superar os 3%, quase o dobro da previsão do início do ano. Mas inflado pelos gastos do governo até a alma. Quanto às eleições, elas ainda trazem como carregamento a “inflação trumpista”. As tarifas, sanções e ofensas notoriamente de caráter ideológico de Donald Trump afetam as expectativas da pior forma. E há quase garantia de que elas continuarão. A dúvida é a intensidade: se a manifestação pró-candidatura de Flávio será mais agressiva ou gradual (Leia aqui).   

As instituições financeiras estão apostando que o Copom vai reduzir os juros para 13,75%. Seria um “dovish covarde”, também pautado pelo prolongamento do horizonte relevante da política monetária para prazos mais longos. O RR acha que os 14% dão para equilibrar a gangorra eleitoral e a plasticidade do monetário e do fiscal. Contudo, o gostinho do “quero mais” na conjuntura somente parece uma brisa, mas é um sopro de alívio muito maior do que diz o percentual. E o BC ainda poderá alegar que permanece austero e independente. Dá para dizer que estamos no imperativo do contraditório. Tudo piorou? Nem tudo. Mas continuamos onde estávamos. Agora é aguardar a ata da reunião do Copom, no dia 11 de agosto, que poderá colocar algum facho de luz na cegueira macroeconômica. 

#Eleições #Inflação #Política monetária

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