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Energia
Pequim começa a enxergar o Brasil como uma plataforma de produção e exportação de combustíveis de baixo carbono. A estratégia vem se materializando por meio do Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (AIIB), instituição multilateral sobre a qual os chineses detêm inequívoca primazia acionária e política. Segundo informações que correm à boca miúda no setor, o AIIB está garimpando projetos de plantas de combustível sustentável de aviação, o SAF, diesel renovável, etanol de milho e de segunda geração e biogás no Brasil. O apoio poderá se estender à infraestrutura necessária para armazenar, transportar e exportar esses produtos. Os primeiros movimentos da China nessa direção foram os financiamentos do AIIB à FS, fabricante de etanol de milho, e à Acelen Renewables, responsável pela construção de uma biorrefinaria na Bahia. Juntas, as duas operações receberam aprovações de até US$ 170 milhões.
Ao financiar plantas industriais, fornecedores de matérias-primas e corredores logísticos, Pequim ganha posição em uma cadeia energética que tende a se valorizar nas próximas décadas. O Brasil reúne escala agrícola, disponibilidade de biomassa, oferta de eletricidade renovável e capacidade industrial para produzir combustíveis de baixo carbono a preços competitivos. O país poderá abastecer tanto o mercado doméstico quanto economias sujeitas a metas crescentes de descarbonização, sobretudo na Europa e, em perspectiva, na própria Ásia.
Em junho, o AIIB aprovou um empréstimo corporativo de até US$ 70 milhões para financiar parte da quarta unidade industrial da companhia, em Campo Novo do Parecis, em Mato Grosso. A nova fábrica deverá acrescentar aproximadamente 540 milhões de litros por ano à capacidade de produção de etanol da FS. A empresa já opera três unidades em Mato Grosso, com capacidade agregada próxima de 2,5 bilhões de litros anuais. A expansão consolida a companhia entre as maiores produtoras mundiais de etanol de milho. A operação com a Acelen Renewables é ainda mais ambiciosa. O projeto prevê a construção de uma grande biorrefinaria na Bahia para a produção de SAF e diesel renovável, também conhecido como HVO. A planta utilizará a rota tecnológica HEFA, baseada no hidroprocessamento de óleos e gorduras. A capacidade projetada é de 20 mil barris diários de matérias-primas.
Em tempo: as operações também indicam uma mudança na forma de atuação do AIIB no Brasil. Até o momento, a presença do banco no país se deu por meio de acordos ou com o próprio governo federal – vide o empréstimo de US$ 1 bilhão para apoiar o Plano de Transformação Ecológica – ou por intermédio de linhas concedidas a instituições financeiras e investimentos em fundos, como BDMG, BTG Pactual, Sicredi e Vinci. Com FS e Acelen, o AIIB passou a financiar diretamente grandes ativos industriais.