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A afirmação que Shakespeare fez em Hamlet com respeito ao reino da Dinamarca se aplica hoje com mais razão ao Vice-Reino da Venezuela. Na verdade, a sucessão de escândalos que vem marcando a campanha eleitoral em curso está impedindo que a opinião pública brasileira fique ciente do acordo em matéria de petróleo firmado entre aquele país e os Estados Unidos no dia 2 de setembro. No entanto, como se trata do mais gritante exemplo do novo imperialismo proclamado por Donald Trump, é fundamental que todos o conheçam perfeitamente para eliminar o risco de que o Brasil seja também submetido aos desígnios coloniais de quem nos vê apenas como parte de um quintal hemisférico.
Em artigo anterior publicado neste espaço há algumas semanas com o título de “Marco Antonio Rubio, Vice-Rei da América Latina” (Leia aqui), comentei a chamada “Doutrina Donroe” – neologismo que combina Monroe e Donald – e a política externa mafiosa de Trump em que seu secretário de Estado desempenha o papel de proa que assim defini naquela ocasião: “Começando pela retomada do controle efetivo do Canal do Panamá graças à ameaça de ação militar, Rubio foi visto como o grande idealizador da incursão armada na Venezuela que, em janeiro do corrente ano, sequestrou Maduro e sua esposa…Não admira que ele seja hoje o presidente de fato daquele país, uma vez que foram mantidas no poder muitas figurinhas hoje bem-comportadas do velho regime chavista, pois o único interesse dos Estados Unidos não consistia na instauração da democracia, mas, sim, em controlar e explorar para seu benefício próprio as riquezas petrolíferas e minerais venezuelanas.”
Não reivindico nenhum dom profético porque até mesmo as freirinhas do Convento de la Inmaculada Concepción em Caracas sabiam que era conversa fiada aquela ideia de que os “amigos do Norte” desejavam instaurar o regime democrático no país levando enfim à presidência a figura hoje patética de María Corina Machado. Na verdade, o jogo sinistro já estava jogado com Delcy Rodríguez, a presidente interina que vai se eternizando no poder, juntamente com outros antigos caudatários de Nicolás Maduro, porque aceitou ser a marionete de Rubio.
Apesar do óbvio interesse de Trump pelo “ouro negro” venezuelano, a rapacidade evidenciada nos termos do acordo vem causando estupefação até mesmo da parte dos mais calejados comentaristas políticos e econômicos de todo o mundo. Por ele, os Estados Unidos passam a controlar, durante nada menos que 100 anos, o gigantesco volume de 65 bilhões de barris de petróleo, o que corresponde a mais de 20% do total das reservas comprovadas da Venezuela e abrange 17 campos em diversas regiões. Para que não haja dúvida acerca do significado dessa desavergonhada apropriação indébita, traduzo a seguir um trecho de documento (Fact-sheet) expedido pela própria Casa Branca em 31 de agosto: “Graças à maior transação petrolífera na história mundial, o presidente Donald J. Trump assegurou o controle majoritário dos Estados Unidos sobre mais de 65 bilhões de barris de reservas comprovadas de petróleo da Venezuela – incrementando amplamente nossas atuais reservas em território norte-americano de cerca de 46 bilhões de barris. Essa transação garante nossa segurança (dominance) energética ao longo do próximo século – com custo zero para os Estados Unidos.” Repito que são palavras de um comunicado oficial do governo norte-americano apesar de refletirem claramente o espírito megalômano do primeiro mandatário.
O modelo de negócios também provoca imenso espanto. Sem nenhum custo para seus cidadãos, o Governo norte-americano, através do Escritório de Capital Estratégico do Departamento da Guerra, fica com 35% do capital da empresa privada North American Blue Energy Partners (NABEP) à qual foram concedidos os campos petrolíferos pertinentes pelo governo venezuelano. Ainda segundo os termos escorchantes do acordo, a NABEP deu ao Departamento de Estado o direito de comprar 20% de toda a sua produção a preço de custo, que representa algo em torno de US$ 20 por barril quando o preço de mercado antes do fechamento do estreito de Ormuz era da ordem de US$ 65-70. Ademais, o Departamento de Estado tem o direito de primeira recusa com respeito aos 80% restantes, o que, na prática, significa um acordo de suprimento exclusivo.
Não bastassem essas vantagens econômicas incomparáveis a qualquer acerto jamais negociado no setor petrolífero, o governo dos Estados Unidos terá poder de veto no tocante à designação dos membros do Conselho de Administração da NABEP, que em todo caso deverá ser composto em sua maioria por cidadãos norte-americanos. Além disso, a empresa terá auditores, advogados e conselheiros também norte-americanos, sendo governada pelas leis dos Estados Unidos. Por fim, o petróleo será produzido com equipamentos de fabricação norte-americana e processado em refinarias situadas no território dos Estados Unidos. Em contrapartida a todas essas benesses, a Venezuela, tomando como base de referência o preço de US$ 65 por barril, receberá de royalties cerca de US$ 19 por barril. Isso representaria pouco mais de US$ 200 bilhões ao longo dos primeiros 25 anos do acordo – ou seja, míseros US$ 8 bilhões por ano!
Mais estranho ainda é que toda essa complexíssima estrutura de poder e riqueza, projetada para durar por um século, tenha sido confiada a um empresário venezuelano chamado Alejandro Betancourt López cuja reputação foi ou é ainda questionada em muitos países (inclusive até recentemente nos Estados Unidos) por corrupção, lavagem de dinheiro e fraude cambial. Com uma trajetória de negócios iniciada ainda nos tempos de Hugo Chávez, Betancourt criou a NABEP no ano de 2024 em parceria com Harry Sargeant III, empresário norte-americano do setor de energia e importante doador do Partido Republicano. Como já mantinha um relacionamento especial com Delcy Rodríguez há alguns anos, ele participou ativamente da preparação da invasão da Venezuela pelas forças militares norte-americanas e do sequestro de Maduro, auxiliando depois a montar o novo cenário petrolífero de seu país sob o domínio de Trump. Sabe-se lá quem são ou serão os sócios ocultos dessa empresa ou de todas as operações que vêm na esteira do acordo recém-assinado…
São visíveis também os ganhos geopolíticos aparentes que o acordo representa para os Estados Unidos. Antes do sequestro de Maduro, pouco mais da metade do pequeno volume de exportações de petróleo venezuelano tinha a China como destino – muito embora os cerca de 400 mil barris por dia representassem apenas cerca de 4% de suas importações do produto. Nas palavras do secretário do Interior dos Estados Unidos, Doug Burgum, o acordo “desloca o centro geopolítico dos mercados de energia global dos pontos de estrangulamento no Oriente Médio” a fim de trazê-lo de volta para o Hemisfério Ocidental. Todavia, está claro que tal movimento, mais expressivo ainda depois que o Irã se mostrou capaz de paralisar grandes rotas de abastecimento global de petróleo e gás, terá causado grande mal-estar na Arábia Saudita e em seus vizinhos ao reduzir de um golpe a importância estratégica que possuíam. Nesse sentido, paradoxalmente o acordo com a Venezuela pode, em prazo mais longo, aumentar a dependência daqueles países com relação ao mercado chinês e de outras nações asiáticas, reduzindo ainda mais a confiança que antes depositavam nos Estados Unidos como escudo protetor.
Seja como for, o tabuleiro energético mundial foi fortemente abalado, e só em um futuro algo distante poderemos avaliar as consequências reais do acordo pois a maioria dos especialistas acredita que seus efeitos só serão sentidos dentro de 8 a 10 anos caso ocorra o investimento de US$ 100 bilhões necessário a fim de trazer a produção de petróleo venezuelana aos níveis de trinta anos atrás. Muitos duvidam que as grandes petroleiras estejam dispostas a correr tal risco até mesmo devido ao caráter patentemente espoliativo do acordo.
Mas o eleitor brasileiro não pode esperar tanto. Dentro de poucas semanas ele precisará decidir se vamos satisfazer ou não a cobiça de Trump por nossos minerais críticos, sobretudo as terras raras de que os Estados Unidos tão desesperadamente necessitam. O altíssimo preço da vassalagem já é conhecido.
Desde que voltou a ocupar a Casa Branca em seu segundo mandato presidencial, Donald Trump, ao destroçar o sistema de organismos multilaterais e hostilizar aliados históricos dos Estados Unidos, vem exibindo em matéria de política externa um comportamento que pode ser generosamente classificado como esdrúxulo. Na linguagem popular, isso tem levado a que se ouça com frequência que “Esse cara é louco!”, porém os aspectos visivelmente incomuns de sua personalidade já foram comentados em vários livros e se se baseiam até mesmo em diagnósticos profissionais. Na verdade, há quase dez anos, a psiquiatra Bandy Lee reuniu, na obra significativamente intitulada “The Dangerous Case of Donald Trump” (“O caso perigoso de Donald Trump”), as opiniões de nada menos que 27 especialistas em sanidade mental que questionaram sua capacidade de ocupar cargos de grande envergadura por revelar um quadro ostensivo de narcisismo e tendências sociopáticas.
Na verdade, sua megalomania e outros sintomas já eram notáveis mesmo antes que Trump se tornasse um político. Como agressivo agente imobiliário e homem de negócios, ele recorreu diversas vezes às bancarrotas espetaculares nas áreas de cassinos e hotéis deixando o prejuízo por conta dos investidores, porém conseguindo manter uma aura pessoal indestrutível de sucesso. A melhor prova disso é dada pelo New York Times que, no distante 2004, sentenciou: “Seu nome se tornou um sinônimo tão reconhecido de sucesso que até mesmo os reveses mais humilhantes mal afetam sua reputação. . . . As regras que governam outros simplesmente não se aplicam a Trump.” Profético, não?
A imagem dourada de Trump, em muito devida à sua arrogância e postura autoritária, ganhou repercussão nacional graças ao papel de âncora que desempenhou nos shows de televisão intitulados “O aprendiz” e “O aprendiz celebridade”, transmitidos pela NBC de 2004 a 2015. Somente quando ele anunciou sua entrada na corrida presidencial com uma retórica racista, homofóbica e contrária aos imigrantes os espetáculos de televisão foram encerrados. No entanto, já então ele era uma figura muito bem conhecida popularmente como um sujeito durão que dizia as verdades que outros buscavam ocultar. Relembrando o lema da campanha de Ronald Reagan em 1980, o MAGA (Make America Great Again) já renascera nas entranhas da nação.
Alguns métodos de Trump no campo externo são hoje bem conhecidos:
De forma geral, essas manifestações podem ser – e frequentemente são – revertidas numa questão até de horas sem o menor pejo, como se as opiniões de Trump fossem vistas num caleidoscópio que as alterasse com um mínimo movimento do tubo geopolítico. Em termos práticos, devido à sua reiteração ad nauseam, equivalem ao preço pelo tapete que o mercador num bazar anuncia embora esteja disposto a reduzi-lo à metade caso o freguês deseje iniciar um processo de barganha. Também em geral, tais declarações e gestos espetaculosos, muitas vezes acompanhados de palavras de baixo calão, têm como objetivo distrair a atenção do público interno pois ocupam os meios de comunicação por algum tempo.
Em suma, vistos numa perspectiva de prazo mais longo, as táticas empregadas por Trump nada têm de lunáticas, representando condutas deliberadas que o tornaram um bilionário (cuja fortuna cresce a cada dia por residir no número1600 da Avenida Pensilvânia, Washington, DC) e comandante das forças armadas mais poderosas que o mundo já viu. A pergunta que se impõe é se, já sendo um caso-limite em matéria de transtornos de personalidade, Donald Trump terá condições de enfrentar as crescentes frustrações no quadro internacional e na economia interna que reduziram para 33% seu índice de aprovação popular. Uma derrota nas eleições de meio do mandato, com a perda de uma ou até mesmo das duas casas do Congresso para o Partido Democrata, pode ser a gota d’água. Com seu coração sempre cheio de mágoa, mas sem direito ao fundo musical da bela canção do Chico Buarque…
Quando, no século XVI, a Espanha de hoje era a maior potência econômica do mundo ocidental, os Reis Católicos de Aragão e Castela estabeleceram duas poderosíssimas cabeças-de-ponte nas Américas: os Vice-Reinos da Nova Espanha e do Peru, com sedes respectivamente nas atuais Cidade do México e Lima. Mediante o eficaz sistema administrativo assim criado, a Coroa espanhola foi capaz de explorar ao máximo as imensas riquezas de prata e ouro encontradas nas novas colônias, bem como lucrativas monoculturas, utilizando impiedosamente as populações locais e escravos trazidos da África.
Em meio a diversos movimentos de afirmação nacional no continente americano, em 1823 os Estados Unidos proclamaram a Doutrina Monroe com base na qual não seria mais permitida a recolonização europeia de nenhum dos países recém-independentes. Originalmente concebida como um escudo de proteção mútua, essa doutrina cedo evoluiu para justificar a expansão e o domínio geopolítico dos Estados Unidos nas Américas. E, no início do século XX, o Corolário Roosevelt (“fale manso e carregue um grande porrete”) transformou os Estados Unidos na “polícia do continente”, resultando em diversas intervenções militares que garantiram o controle econômico e político da região. Após a Segunda Grande Guerra, o risco de um avanço do comunismo a partir da Cuba de Fidel foi debelado pela Crise dos Mísseis e pela instalação de ditaduras militares em quase todos os países latino-americanos por conta das ações cuidadosamente planejadas do CIA e do Pentágono com o apoio de segmentos conservadores no seio de cada um deles.
Com o desmonte da União Soviética e o consequente fim da Guerra Fria, Washington exerceu durante algumas décadas um controle menos conspícuo das ações ao Sul – e chegamos ao ponto de ver John Kerry, o secretário de Estado de Barack Obama e ex-candidato do Partido Democrata à Presidência da República, se dar ao luxo de declarar perante a Organização dos Estados Americanos, em novembro de 2013, que a “era da Doutrina Monroe acabou”.
Entretanto, com a crescente maré da direita e a rápida penetração econômica da China, a máscara caiu e os Estados Unidos retomaram sua postura tradicional de supremacia com renovada virulência. Trata-se da já famosa “Doutrina Donroe” (neologismo que mistura Monroe com Donald) formalmente expressa na Estratégia de Segurança Nacional, publicada pela Casa Branca no dia 4 de dezembro de 2025, que reflete a visão imperialista do atual governo norte-americano. Só que com duas novidades.
A primeira é que as ambições de domínio territorial agora se estendem também para o Norte, pois o Canadá é desejado como 51º estado, enquanto a Groelândia (“a big, poorly run piece of ice” nas palavras de Trump) é vista como ativo estratégico fundamental. E a segunda consiste no fato de que já foi designado um vice-rei para a América Latina na figura de Marco Antonio Rubio. Filho de cubanos que saíram da ilha antes da ascensão de Fidel, ele nasceu em Miami há 55 anos quando seus pais nem eram ainda cidadãos norte-americanos. Formou-se como advogado em 1996 e quatro anos depois, como membro do Partido Republicano, foi eleito representante na Câmara de Representantes da Flórida (cargo equivalente ao de deputado estadual no Brasil), onde ganhou crescente importância como porta-voz da direita. Numa carreira meteórica, em 2010 foi eleito para o Senado Federal (à época um de apenas dois descendentes de latino-americanos naquela casa legislativa) e, em 2016, chegou a disputar a indicação do seu partido como candidato à Presidência da República quando Trump foi escolhido.
Graças a suas credenciais ideológicas, foi uma escolha óbvia de Trump, em seu segundo mandato, para a secretaria de Estado, função mais tarde acumulada com a também importantíssima de Conselheiro de Segurança Nacional (“dobradinha” antes só concedida a Henry Kissinger e pela primeira vez na história oferecida a um descendente de latino-americanos). No entanto, para que não pairassem dúvidas sobre sua postura, já nas audiências perante a Comissão de Relações Exteriores do Senado que resultaram no endosso à indicação de seu nome, Rubio, entre otras cositas más, declarou que a China era “o mais potente e perigoso adversário de capacidade quase equivalente que esta nação enfrentou até hoje” e que o Partido Comunista chinês tinha “mentido, ludibriado, hackeado e roubado de nós a caminho de se tornar uma superpotência global”.
Nessas posições cruciais, Rubio tem sido um executor fiel da diplomacia mafiosa instaurada por Trump, contribuindo para o desmonte sistemático das instituições multilaterais criadas após a Segunda Guerra Mundial e para coagir, mediante intimidações e retaliações concretas, os tradicionais aliados do país. Mas seus maiores êxitos decorrem da reimplantação ostensiva do imperialismo norte-americano no seu “quintal” hemisférico. Começando pela retomada do controle efetivo do Canal do Panamá graças à ameaça de ação militar, Rubio foi visto como o grande idealizador da incursão armada na Venezuela que, em janeiro do corrente ano, sequestrou Nicolás Maduro e sua esposa enquanto, no processo, liquidou nada menos que 32 agentes de segurança cubanos que faziam a guarda pessoal do ditador. Não admira que ele seja o presidente de facto daquele país, uma vez que foram mantidas no poder muitas figurinhas hoje bem-comportadas do velho regime chavista, pois o único interesse dos Estados Unidos não consistia na instauração da democracia, mas, sim, em controlar e explorar para seu benefício próprio as riquezas petrolíferas e minerais venezuelanas. Paralelamente, aperta-se o cerco contra Cuba, caracterizada como “ameaça à segurança nacional dos Estados Unidos (!!!)”, com reiteradas indicações de que pode estar sendo planejada a invasão armada da ilha.
Além desse retorno descarado à secular gunboat diplomacy, a dupla Trump/Rubio vem influenciando as eleições em países da região e, apenas na América do Sul, já ajudou a trazer para o campo da direita os governos de Argentina, Chile, Paraguai, Bolívia, Peru, Colômbia e Equador, sem falar na colonizada Venezuela. Agora as baterias se assestam cada vez mais em direção ao Brasil, de que são exemplos a caracterização como grupos terroristas das facções criminosas que aqui operam e o tarifaço imposto nos termos da Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. Contrariando todos os cânones diplomáticos, Rubio fez declarações insolentes em que, apesar de mero ministro das Relações Exteriores, criticou abertamente um chefe de Estado ao afirmar que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva “priorizou seu próprio ego em detrimento de um acordo que vise o bem-estar do povo brasileiro” uma vez que ele e seu governo “não negociaram com os Estados Unidos de boa fé”.
Mas devemos estar preparados para outros ataques similares porque o secretário de Estado está acumulando capital político junto ao MAGA e, sobretudo, aos grandes doadores corporativos. Apesar de que na superfície reine a paz entre o vice-presidente Vance e Rubio, nos corredores do poder em Washington já se percebe claramente a luta surda entre os dois para ver quem será o candidato republicano à presidência em 2028, quando Trump estará constitucionalmente impedido de concorrer. E a dianteira de Vance nesta corrida, que parecia imbatível algum tempo atrás, vem diminuindo a cada sucesso de Rubio, conquanto certamente Trump – a quem caberá na verdade decidir sobre o preferido – só deva se declarar em favor de um ou de outro bem mais adiante. Não obstante, sem dúvida como parte desse combate, vimos há pouco Vance, que é um devotado católico, criticar o Papa Leão XIV por sua postura teológica no tocante à guerra contra o Irã. E muitos perguntam por que razão Trump sempre designa Vance para chefiar as negociações com os iranianos, assim poupando Rubio, quando bem sabe que aquelas tratativas têm grande probabilidade de fracassar.
O vice-rei da América Latina, que modestamente não divulga seu nome imperial, de fato deseja sentar-se em breve no trono cercado de bilionários.
Ainda ontem, baseado em tudo que dizia a mídia brasileira, publiquei neste espaço um artigo intitulado “White House Blues” em que atribuí a Donald Trump a iniciativa de convidar Lula para um encontro na Casa Branca. Sabe-se agora que a iniciativa do tête-à-tête partiu mesmo de Lula, num telefonema não planejado feito na sexta-feira, dia 30 de abril, sem a presença que seria de esperar do Ministro das Relações Exteriores ou mesmo de qualquer diplomata.
Bem que, no citado artigo, eu questionava o que teria levado Trump a fazer aquela “convocação” sem motivos claros e com certo grau de urgência, afirmando que ele não deveria estar interessado apenas “em proporcionar um santinho eleitoral para Lula em que os dois aparecem sorrindo”. E, num comentário profético, acrescentei que “o tempo provavelmente deve fornecer uma explicação mais satisfatória”.
Pois o prestativo tempo nos socorreu com a explicação, agora perfeitamente racional, de que coube ao próprio Lula sair em busca de um feito externo capaz de mitigar o desgaste causado pelas derrotas nos casos de Jorge Messias e do veto à dosimetria, bem como pelos números declinantes em todas as pesquisas de opinião. E, com sua inegável sensibilidade política, ele estava pronto até mesmo a viver um episódio conflitivo na Casa Branca porque ainda assim sairia ganhando. No entanto, teve a dupla sorte de encontrar um primeiro mandatário norte-americano surpreendentemente afável e interessado em normalizar as relações sobretudo econômicas com o Brasil, aproveitando inclusive a ausência de Marco Rubio para evitar qualquer atrito em torno das questões da Venezuela e de Cuba.
Mas essa nova e plausível rearrumação do tabuleiro gerou um novo conjunto de enigmas. Se me permitem uma nota pessoal de orgulho, no citado artigo, sem nenhuma justificativa fática, eu farejei a presença do senhor Joesley Batista nesta trama, ali especulando que ele e seu irmão poderiam estar envolvidos em alguma transação de vulto no terreno crucial dos minerais críticos. E não é que o famoso encontro dos dois chefes de Estado foi intermediado por Joesley, em seu celular e o tendo como intérprete? Convenhamos que não é pouco para ninguém na face do planeta chamar um número na Casa Branca e rapidinho conseguir que venha ao telefone o senhor Trump para um descontraído bate-papo de 40 minutos com alguém que ele só viu duas vezes na vida, em especial terminando com um sonoro “I love you”! E o que estava fazendo o senhor Joesley no Palácio da Alvorada, aparentemente sem constar da agenda oficial, na véspera de um feriado?
Mas o mistério se aprofunda. Em 4 de maio, três dias antes da visita de Lula a Washington, o Procurador Geral dos Estados Unidos Todd Blanche, a Secretária de Agricultura, Brooke Rollins e o Assessor Econômico da Presidência Peter Navarro deram uma conferência de imprensa conjunta em que, entre outras coisas, anunciaram o início das investigações federais antitruste com relação às quatro maiores empresas processadoras de carne do país, com foco especial nas questões de concentração e conluio na fixação de preços. Como duas delas pertencem a brasileiros – JBS e National Beef (Marfrig) – as autoridades citadas cuidaram de apelar para as preocupações de soberania no melhor estilo trumpiano, identificando a segurança alimentar com a segurança nacional. E a JBS, dos irmãos Batista, foi simplesmente acusada de ter um histórico de corrupção, associação com cartéis e trabalho escravo. Nas palavras de Navarro, “o lobby da carne representado pelos brasileiros ameaçou silenciosamente a Casa Branca e vimos o que de outro modo deveria haver estado nas gôndolas dos supermercados norte-americanos ser enviado para onde? Para a China. Os brasileiros, particularmente a JBS, distribuem milhões de dólares ao sistema político norte-americano como se fossem caramelos. A taxa de retorno que obtêm com isso faria ruborizar um fundo de investimento em Wall Street”.
Pelo que se sabe, esse saboroso assunto não foi comentado nas três horas de reunião entre Trump e Lula, que declarou não ter tido a coragem de perguntar se o bife servido no almoço era de procedência brasileira. Mas há notícia de que Joesley estava na capital dos Estados Unidos no mesmo dia do encontro presidencial. As coincidências abundam, porém não custa esperar que o tempo volte a nos dar uma mãozinha para entendermos qual o caroço debaixo desse angu.
Para desespero da extrema direita brasileira – em especial daqueles reles antipatriotas que já sonharam em ter acesso indiscriminado à Casa Branca – a visita de Lula a Washington superou as melhores expectativas do Planalto e de muita gente que simplesmente temia algum desastre nacional do tipo 7 x 1. Isso ficou visível desde o cumprimento afável na chegada (sem aquele “abraço de urso” que esconde um gesto de supremacia pessoal), até os elogios posteriores do presidente norte-americano (caracterizando o nosso como “bom”, “dinâmico” e “inteligente”). Com a duração inesperadamente longa de três horas, o encontro inquestionavelmente positivo permitiu um exame superficial de temas geopolíticos, mas se concentrou, como era correto, nas questões relativas aos minerais críticos, luta contra as facções criminosas e comércio bilateral.
No entanto, como certamente Donald Trump não estava interessado apenas em proporcionar um santinho eleitoral para Lula em que os dois aparecem sorrindo, cabe analisar de início por que foi feita a “convocação” numa sexta-feira para um encontro realizado seis dias depois, o que lhe conferiu certo caráter de urgência. A menos que as pessoas acreditem em coincidências que beiram as raias do absurdo, a única explicação plausível que me ocorre tem a ver com a ausência na reunião do Secretário Marco Rubio, que não poderia deixar de participar da visita do principal mandatário da América Latina. No entanto, como ele se encontrava em visita ao Papa (!) e não foi substituído na comitiva de Trump por nenhum funcionário do Departamento de Estado (hoje comandado por radicais da direita), deixaram de constar da pauta as espinhosas questões da Venezuela e de Cuba, aparentemente suscitadas por Lula num oferecimento de mediação que também não parece ter encontrado eco.
Como também não estiveram presentes as queixas dos grandes bancos e das big techs sobretudo com respeito ao Pix, antes vistas como assuntos de fundamental interesse para o vizinho do Norte, cumpre reconhecer que, após ano e meio de turbulências causadas por Trump, ele agora desejava “normalizar” as relações com o Brasil dando ênfase às matérias econômicas. Sinal claro disso foi o fato de se fazer ladear pelo vice. J.D. Vance e pela Chefe de Gabinete. Susie Wiles, mas operacionalmente apenas por Scott Bessent (Secretário do Tesouro), Howard Lutnick (Secretário de Comércio) e Jamieson Greer (USTR – Representante de Comércio dos Estados Unidos).
Até aí tudo bem, tudo normal… Mas será só isso mesmo? Tendo que lidar com graves problemas bélicos no exterior e crescentes dificuldades políticas no cenário interno, o que levaria Trump nesse exato momento a fazer acontecer uma reunião anunciada desde março e que parecia dormitar nas gavetas dos dois países sem nada que exigisse solução a curto prazo? Num raciocínio diabólico, será que Trump desejava aproveitar o momento de fraqueza de Lula, com a derrota da indicação de Messias e a rejeição de seu veto à lei da dosimetria? Será que queria dar um boost fenomenal a seu adversário bolsonarista, interferindo na eleição presidencial como muitos desejavam na direita e outros tantos temiam na esquerda? Ah, mas se fosse assim por que razão, como dono da casa, Trump teria aceitado gostosamente o pedido brasileiro para abrir mão daquele famoso encontro prévio no Salão Oval onde já humilhou mais de um visitante internacional? E só existe uma resposta válida para isso: simplesmente porque não tinha tal intenção, porque seu objetivo era, pelo contrário, mostrar ao mundo (aos europeus?) que é possível manter um relacionamento produtivo e respeitoso até com governantes que defendem ostensivamente posturas contrárias à sua visão imperialista do mundo.
Ótima explicação, não é mesmo? Dessas que fazem a alegria das chancelarias em seus comunicados de imprensa, dos comentaristas na mídia, dos inocentes de plantão. Mas será mesmo só isso? A montanha pariu o rato de um grupo de trabalho que tem 30 dias para afinar os instrumentos na orquestra da seção 301? O tempo provavelmente deve fornecer uma explicação mais satisfatória, porém até lá vale a pena contemplar duas hipóteses que atendem basicamente aos interesses de Trump.
A primeira tem a ver com sua acelerada perda de popularidade, até mesmo nas hostes republicanas, à medida que se aproximam as cruciais eleições de meio de mandato. Reconhecendo que, com exceção da Venezuela, suas aventuras no exterior fracassaram e têm crescente impacto inflacionário, Trump estaria disposto a adotar um postura internacional menos agressiva, de que são exemplos seus ansiosos esforços para cessar as hostilidades no Irã, na Ucrânia e no Líbano. Com relação ao Brasil, além de saber que os ataques a Lula saem pela culatra, Trump conhece bem o que significa para seus compatriotas o preço do café e da carne para hambúrguer, não havendo de fato justificativa alguma para punir um parceiro que tem déficit tradicional nas trocas comerciais e financeiras com os Estados Unidos. Nesse cenário mais benigno, a invasão de Cuba seria vista como mais uma de suas típicas bazófias, talvez cedendo lugar aos entendimentos informais que vêm sendo conduzidos na ilha inclusive por portadores do sobrenome Castro.
A segunda hipótese, que não conflita com a primeira, tem a ver com as famosas terras raras ou minerais críticos em geral. Pautado pela recente decisão da Câmara de Deputados em favor da multilateralidade internacional na exploração desses produtos, Lula já chegou a Washington sem precisar combater eventualmente a esdrúxula ideia de exclusividade norte-americana que circulava como balão de ensaio. Por outro lado, como mera coincidência ou não, tem se falado que a LHG Mining, braço de mineração dos irmãos Batista, vem discutindo com a Vale um investimento conjunto nessa área, o qual poderia – quem sabe? – vir a incluir algum grande parceiro norte-americano sócio de Jared Kushner. E, por fim, Trump visitará Xi nos dias 14 e 15 do corrente mês, curiosamente tornando realidade um encontro também anunciado em março, mas no qual, além de Ormuz, as terras raras serão objeto de intenso debate. Como China, Brasil e Estados Unidos detêm as maiores reservas mundiais dessas matérias estratégicas, somos parte essencial desse comboio que ditará o futuro da humanidade.
Na manhã de hoje foi formalizada a criação do Conselho da Paz proposto por Donald Trump numa cerimônia realizada em Davos em que estiveram presentes, além do atual ocupante da Casa Branca, chefes de Estado de numerosos países, incluindo Argentina, Catar, Hungria, Indonésia, Paquistão e Paraguai, além de altos representantes da Arábia Saudita, Emirados, Jordânia e Turquia. Segundo autoridades norte-americanas, dos cerca de 60 países convidados mais da metade já teria concordado em participar, embora muitos países ainda estudem o convite (incluindo China e Rússia) e seis já o tenham recusado (Dinamarca, Eslovênia, França, Itália, Noruega e Suécia).
Com essa formalização, deixa de ser a válida a sugestão que fiz em artigo anterior, intitulado “O aviário de Trump” (https://legado.relatorioreservado.com.br/noticias/o-aviario-de-donald-trump/), no sentido de que o Brasil poderia condicionar sua presença no órgão a determinadas modificações (certamente inaceitáveis) no projeto de estatuto que havia acompanhado o convite de Trump a Lula. Isso porque, segundo o próprio estatuto, não são admitidas reservas ao texto depois que a entidade entrasse em vigor como acaba de ocorrer.
Nessas circunstâncias, só resta agora ao Brasil negar sua participação devido à série de graves defeitos que apontei em outro artigo neste espaço, intitulado “Uma pomba sobrevoa o Palácio do Planalto” (https://legado.relatorioreservado.com.br/noticias/uma-pomba-sobrevoa-o-palacio-do-planalto/). Entre os mais obviamente impossíveis de serem aceitos pelo Brasil constavam a possibilidade de atuação do Conselho da Paz fora da Faixa de Gaza (que foi exclusivamente contemplada na Resolução 2083 do Conselho de Segurança das Nações Unidas) e o fato de que Donald Trump deterá a presidência vitalícia da nova entidade, devendo designar seu sucessor de maneira a gerar naquele território um feudo dinástico.
No entanto, como não há o menor interesse de que o Brasil hostilize o proponente do Conselho e os numerosos membros já confirmados, é recomendável que nossa recusa seja justificada por razões constitucionais. Com efeito, o artigo 4 da Carta Magna lista os princípios que regem as relações internacionais do país e, entre eles, como item quinto, se afirma a igualdade entre os Estados. Ora, o estatuto do Conselho da Paz viola esse princípio ao estabelecer diferenças frontais entre a) Estados convidados e não convidados por Trump, e b) Estados com mandato inicial de três anos sujeito a renovação por decisão monocrática de Trump e Estados com assento permanente caso paguem US$ 1 bilhão pela cadeira cativa.
Valendo-se desse argumento perfeitamente válido e correto, a ser explicitado em carta sóbria do presidente Lula ao presidente Trump, ficam nossas autoridades eximidas de declarar quaisquer outros motivos para sua decisão. Nessa comunicação, aliás, é fundamental enfatizar nosso desejo de que se estabeleça a paz duradoura na Faixa de Gaza, de que os palestinos gozem de padrões de vida condizentes com sua condição de cidadãos de pleno direito daquele território e de que as novas condições a serem ali criadas conduzam à formação definitiva do Estado palestino e à solução dos dois Estados.
Nada impedirá que possamos contribuir com o Conselho da Paz na realização de tais objetivos e até mesmo formar, com outros países que se neguem a dele participar, um grupo permanente de acompanhamento de suas atividades.
Cabe, porém uma última palavra dirigida àqueles que têm ótimas razões para crer que esse Conselho, tal como constituído, possa se transformar numa gigantesca fonte adicional de riqueza para o genro de Trump, Jared Kushner, outros membros de sua família e os multibilionários que o cercam. Os dirigentes de Egito, Catar e Turquia (conegociadores do cessar-fogo com os Estados Unidos em novembro de 2024), bem como os da Jordânia, Emirados e Arábia Saudita – em suma, todos os países árabes da região direta ou indiretamente envolvidos no conflito -, têm pleno conhecimento do que está em jogo. Se aceitam participar do Conselho é devido à convicção de que o mesmo ocorreria caso Israel anexasse a Faixa de Gaza e os palestinos que ali moram se transformassem eternamente em cidadãos de segunda classe sem qualquer respeito por suas vidas, bem-estar ou o direito de um dia criarem um Estado próprio.
Tomando conhecimento da minuta do estatuto do Conselho da Paz proposto por Donald Trump a cerca de 60 chefes de Estado, fica claro que a pomba mencionada em meu artigo anterior sobre o assunto ganha características de filhote de urubu.
São os seguintes os mais graves inconvenientes da referida Carta:
Diante desses sérios defeitos do documento constitutivo do Conselho, como deve o Brasil reagir ao convite que Trump dirigiu a Lula para integrá-lo?
O primeiro ponto a considerar é que o Conselho de Paz mandatado pelas Nações Unidas efetivamente previa a presidência de Donald Trump sem entrar em detalhes sobre a estrutura e funcionamento do órgão. Sua finalidade, porém, era de fato impedir a continuidade do genocídio conduzido por Israel em Gaza e a anexação pura e simples da Faixa. Como as forças militares israelenses ainda controlam mais da metade daquele território e limitam fortemente os fluxos de assistência aos dois milhões de seres que ali sobrevivem em condições subumanas, não surpreende que Benjamin Netanyahu e seus comparsas da direita radical estejam furibundos com a iniciativa de Trump. Mais certo ainda, uma das milhares de mães palestinas que vive numa tenda e cuida de filhos sem comida suficiente, sem remédios, sem escolas e sem perspectivas não terá um minuto de sua triste existência para dedicar-se às questões geopolíticas em jogo ainda hoje. Nada impedirá que Israel alcance seus terríveis propósitos sem uma ação internacional eficaz.
Por tal motivo, e também pelos outros elementos de juízo que expus no artigo anterior sob o título de “Uma pomba sobrevoa o Palácio do Planalto”, não seria cabível uma negativa peremptória – coisa que até agora só foi feita pela França sem dúvida sob a influência do tratamento humilhante que Trump vem dando à Europa, ameaçando inclusive tomar a Groenlândia à força. Igualmente não caberia apressar-se com um sim sicofântico como tratou de fazer, por exemplo, o áulico Javier Milei. Na realidade, tal como já declarado pelo porta-voz do Kremlin. Putin e dezenas de chefes de Estado em todo o planeta estudam neste momento com seus chanceleres como responder a tão incômodo convite sem sacrificar o futuro dos palestinos em Gaza e sem provocar uma crise política com o vingativo ocupante da Casa Branca.
Durante esse período necessário de reflexão, os agentes diplomáticos devem estar realizando consultas urgentes a fim de tentar conhecer a posição de outros players importantes. Assim, por exemplo, o Brasil teria muito a ganhar caso esteja auscultando as opiniões de Canadá, Austrália, Reino Unido, Alemanha, Arábia Saudita, Egito e Emirados – para só citar algumas das nações que não reagirão de forma amadorística ao se verem confrontadas com situação tão desafiadora. Quem sabe pode até surgir uma resposta coletiva ou coordenada que evite a particularização aceita por Emmanuel Macron em troca de uma possível tarifa de 200% sobre os vinhos franceses nos Estados Unidos. Embora o artigo 12 diga que o estatuto não admite reservas, uma possibilidade consiste em que o Brasil aceite o convite, mas condicione sua entrada no Conselho à efetivação de determinadas alterações no texto plenamente explicadas. Caso tais mudanças sejam rechaçadas por Trump, isso faria com que nossa não participação se devesse a ele próprio.
Enquanto isso, as atenções devem continuar concentradas em buscar conhecer que outras criaturas habitam o estranho aviário de Donald Trump.
No dia 14 de janeiro, Donald Trump anunciou o lançamento da Fase 2 do seu plano de 20 pontos que resultara no cessar-fogo em Gaza e que, sob a supervisão de um Conselho de Paz e de um órgão executivo, previa o estabelecimento de uma administração transitória e tecnocrática de palestinos no território.
Entretanto, talvez poucos se lembrem de que, no dia 17 de novembro de 2025, o Conselho de Segurança das Nações Unidas havia aprovado por surpreendente unanimidade (com a mera abstenção de China e Rússia) a Resolução 2803 que inter alia: a) endossava o Plano Compreensivo para encerrar o conflito de Gaza; b) agradecia o papel desempenhado por Estados Unidos, Catar, Egito e Turquia na concretização do cessar-fogo; e c) aprovava o estabelecimento de um Conselho de Paz (Board of Peace – BoP) com personalidade jurídica internacional. A resolução indicava também que “após a fiel execução do programa de reforma da Autoridade Palestina e que tenha progredido a reconstrução de Gaza, as condições poderão finalmente estar reunidas para um caminho crível rumo à autodeterminação e à criação de um Estado palestino”.
É para este Conselho que Lula está sendo convidado por Trump, convite que deve ser aceito sem delongas ou tergiversações por ser um órgão devidamente mandatado pelas Nações Unidas mediante a única resolução sobre Gaza do Conselho de Segurança que, ao longo dos dois anos de conflito, não foi bloqueada por vetos de um ou mais dos cinco países que detém esse poder.
Além disso, a participação do presidente Lula se justifica pelas seguintes razões:
1) garante a presença no Conselho, juntamente com o presidente da Turquia, Recep Erdogan, e do primeiro-ministro do Catar, xeique Al Thani, de pelo menos três líderes que assumiram posições inequívocas de crítica a Israel pelo uso excessivo de força na Faixa de Gaza ao mesmo tempo em que condenavam os bárbaros ataques terroristas do Hamas que provocaram o morticínio de palestinos e judeus;
2) demonstra a importância internacional do Brasil, cujo presidente é convidado sem que, como os também convidados Javier Milei (Argentina) e Santiago Peña (Paraguai), represente um país caudatário de Washington;
3) por pressão dos países árabes que endossaram o plano de cessar-fogo de Trump e a histórica resolução 2083, oferece a única possibilidade de criação de um Estado palestino. A alternativa (contemplada inicialmente pelo próprio Trump) consistia na anexação de Gaza por Israel e até mesmo na expulsão dos palestinos de um território ocupado há séculos, hipóteses formalmente rechaçadas nos documentos acima citados. Aliás, não surpreende que Benjamin Netanyahu e seus seguidores da extrema-direita estejam furiosos com todos os anúncios de Trump nos últimos dias, declarando que não foram consultados sobre os membros dos órgãos que estão sendo criados e ameaçando até mesmo retomar os bombardeios na Faixa. Mas isso significaria o rompimento frontal com o patrão que condenaria Israel a uma condição de absoluto pária internacional, cortando os vínculos de apoio financeiro e de fornecimento de armas que o tornam totalmente dependente dos Estados Unidos.
Por fim e obviamente, o Brasil não deve pagar o bilhão de dólares que seriam supostamente destinados ao fundo de reconstrução de Gaza e estão sendo cobrados por Trump daqueles países que desejem manter um assento permanente do Conselho de Paz além dos três anos a que todos farão jus inicialmente. Até lá o voo ainda hesitante da pomba da paz estará sendo acompanhado por muitos milhões de olhos ansiosos.
É impossível derramar uma só lágrima pela figura política de Nicolás Maduro, um ditador incompetente que empobreceu seu povo e fraudou a eleição de 2024 que o tiraria pacificamente do poder. Mas o vasto e letal ataque militar norte-americano na madrugada de sábado, que o sequestrou juntamente com sua esposa em Caracas, é a prova definitiva de que a política externa mafiosa de Donald Trump tem um caráter ostensivamente imperialista e só obedece à lei da selva. Na América Latina, vista por ele e seus áulicos como um mero quintal dos Estados Unidos, voltamos aos tempos das canhoneiras com a repaginação da doutrina Monroe, agora intitulada Donroe sem que isso seja uma homenagem ao Pato Donald.
Pouco importa a Trump que todo esse violento desrespeito às normas éticas e legais jogue por terra o sistema multilateral construído sob a liderança dos próprios Estados Unidos desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Pouco importa a ele que a campanha contra a Venezuela venha sendo cinicamente conduzida sob o pretexto duvidoso de que Maduro é um narcotraficante ou, segundo a definição agora imposta por Washington, um narcoterrorista. Isso porque a essência de suas ações se fundamenta em dois pilares: em primeiro lugar, o desejo de enxotar a China do continente americano (na verdade, da Groenlândia à Patagônia) como parte da Segunda Grande Guerra Fria em que as duas potências disputam a hegemonia mundial; em segundo lugar, a fome por matérias estratégicas, do petróleo às terras raras.
No caso da Venezuela sem dúvida o objetivo central é o petróleo, embora as enormes reservas lá existentes sejam de uma variedade betuminosa, difícil de extrair e processar.
No entanto, pelas declarações feitas na conferência de imprensa concedida em Mar-a-Lago, deduz-se que todas as instalações no setor petrolífero venezuelano que pertenciam a empresas norte-americanas e foram nacionalizadas por Chavez serão devolvidas a seus antigos donos. Tudo indica que eles receberão as compensações devidas e que os investimentos a serem feitos para recuperá-las deverão ser pagos de alguma forma pela Venezuela, talvez como parte dos royalties a que o Governo faria jus nas vendas externas futuras do petróleo produzido nessas instalações. O mais notável é que tudo isso (e certamente muito mais) deverá ser garantido pelo fato de que Trump pessoalmente (remember Gaza?) dirigirá essas operações durante um período de transição não explicitado.
Mas o problema é o seguinte: como fazer isso na prática, como garantir o controle físico dessas numerosíssimas instalações espalhadas pelo país sem a presença de uma vasta tropa de ocupação territorial? Ora, essa opção parece de todo inviável diante da oposição dos próprios apoiadores de Trump no MAGA, que jamais admitiriam ver, como no passado, aquelas fileiras de caixões cobertos com a “Star and Stripes” trazendo militares mortos em conflitos no exterior para serem enterrados com todas as honras de praxe no cemitério de Arlington.
Não sendo assim, é óbvio que será necessária a colaboração maciça de venezuelanos para tornar efetivas a retomada e a exploração das propriedades confiscadas há 50 anos, para garantir as compensações financeiras, para viabilizar a venda e exportação do petróleo etc., etc., etc.
Até as declarações de Trump no sábado, a grande favorita para executar essas penosas funções era Maria Corina Machado, recente ganhadora do Nobel da Paz e líder da oposição, que teria podido ser a vencedora do pleito eleitoral de 2024 caso não houvesse sido arbitrariamente desqualificada pelo Tribunal Supremo de Justiça da Venezuela cumprindo as ordens de Maduro. Mas, para surpresa geral, Trump disse, então, que ela não tinha “o apoio ou o respeito dentro do país”, fazendo com isso que todos os olhos se voltem para aqueles que, até sexta-feira, se identificavam como companheiros de luta de Maduro contra as ações imperialistas do atual ocupante da Casa Branca.
Esse tipo de reviravolta não surpreende no caso de Trump, famoso pelos TACOs (Trump always chickens out), como aliás ocorreu ao abandonar o pretexto Bolsonaro para violar a soberania brasileira quando entendeu finalmente que isso constituía um tiro no pé. Mas traz à lembrança outras desastrosas experiências norte-americanas de tentar governar outros países, como aconteceu no Vietnã, no Iraque, no Afeganistão e em várias instâncias na própria América Latina, frequentemente gerando conflitos, instabilidade interna e um crescente sentimento de antiamericanismo.
Mais complicado ainda será encontrar, dentre os antigos seguidores entusiastas de Maduro, aqueles que se disporão a enfrentar a opinião pública, ao menos certos segmentos militares, as cortes de justiça e o Congresso a fim de defender os interesses norte-americanos sob o controle pessoal de Trump, que declara abertamente a intenção de comandar todas as ações futuras no país por tempo indeterminado. A história já nos trouxe alguns exemplos não muito distantes no tempo, como a “quinta coluna” proclamada pelas forças fascistas de Franco durante a guerra civil espanhola ou as ações de Vidkun Quisling, que chefiou nominalmente o governo da Noruega como Ministro-Presidente depois de o país ter sido ocupado pela Alemanha nazista durante a Segunda Guerra Mundial (tendo seu sobrenome se transformado num substantivo comum que significa traidor ou colaborador).
Correm rumores de que já haveria negociações em curso no tocante ao day after Maduro com a vice-presidente Delcy Rodríguez, que recebeu da suprema corte do país a ordem de assumir interinamente a presidência “para garantir a continuidade administrativa e a defesa integral da nação”. Aliás, a ausência de Maduro foi interpretada como “temporária” pelo tribunal, permitindo que a vice assumisse o cargo por até 90 dias, período que pode ser prorrogado pelo Parlamento. Como ela própria já havia declarado que Maduro era o real presidente da nação, podemos fazer uma tênue ideia dos imensos problemas que precisarão ser superados para que a Venezuela não entre em colapso total após o atentado majestático de Trump à sua soberania.
Vale, por fim, uma séria advertência: Trump colocou claramente a América Latina em quarentena e está disposto a instalar em todos os países da região regimes subordinados a ele, aos interesses políticos e econômicos dos Estados Unidos, aos conceitos de extrema direita advogados pelo movimento MAGA.
Não se iludam os que creem que Lula conseguiu “encantar” Donald Trump, que os dois agora são amiguinhos. Nas eleições presidenciais deste ano todo o poder da Casa Branca será posto a serviço de seus adversários – de preferência a um deles para evitar a dispersão de forças.
A conversa telefônica realizada no dia 2 de dezembro entre Lula e Donald Trump teve uma característica inédita e crucial que talvez não haja merecido a devida atenção dos comentaristas: foi a primeira vez em que coube ao presidente brasileiro a iniciativa de estabelecer um contato pessoal com o ocupante da Casa Branca. Na verdade, até então todas as interlocuções entre os dois haviam sido iniciadas por Trump e atendiam prioritariamente a seus interesses político-econômicos – e isso desde o encontro nada fortuito em 24 de setembro nas Nações Unidas, passando por um primeiro telefonema em 6 de outubro e coroado pela reunião presencial na Malásia 20 dias depois. Ao longo de todo esse tempo, também é importante assinalar, desapareceu da pauta a suposta perseguição política ao ex-presidente Jair Bolsonaro que servira de pretexto para as posturas intervencionistas ensaiadas por Trump e também para o tarifaço imposto em julho.
Nas últimas semanas, haviam sido registrados movimentos na área comercial que muito favoreceram diversos produtos brasileiros, a começar pelo desmonte global das “tarifas compensatórias” de 10% em 14 de novembro e, em 20 do mês passado, a anulação das tarifas punitivas de 40%, medida especifica que beneficiou as vendas de café, carnes, frutas, açaí e outros produtos agrícolas não produzidos nos Estados Unidos ou produzidos em escala insuficiente para abastecer o mercado interno. Em todos esses casos, a motivação de Trump nada teve a ver com os sacrifícios antes sofridos pelos países produtores, e sim, exclusivamente, com os efeitos inflacionários que vinham corroendo sua imagem política tal como visto nas eleições realizadas em Virginia, Nova Jersey e Nova York.
Não obstante, malgrado um encontro entre os chanceleres Mauro Vieira e Marco Rubio em Washington no dia 13 de novembro, não ocorreram as negociações técnicas entre os dois governos anunciadas naquele encontro. Com isso, continuam a enfrentar tarifas proibitivas no mercado norte-americano inúmeros produtos, tais como pescados, móveis, sapatos, café solúvel, armas e equipamentos industriais.
Só isso seria bastante para justificar o recente telefonema em que Lula comprovou transitar agora por uma rua de duas mãos, podendo efetivamente assumir a iniciativa de suscitar questões de nosso interesse junto a Trump.
Adicionalmente, aquele que tinha sido caracterizado como um imperador, passou a declarar que gosta de um chefe de Estado antes visto como um perigo comunista na América Latina. (Nessa categoria, aliás, Lula se une a outras figuras de relevo na cena internacional como Xi Jinping, Vladimir Putin, King Jong-un e Benjamin Netanyahu.) Mas, ao que sabe, também foram tratadas outras matérias relevantes, entre as quais se destacam as sanções impostas a autoridades brasileiras e a necessidade de colaboração no ataque às organizações criminosas – item em que, invertendo a direção costumeira das queixas sobre o assunto, Lula mostrou como a lavagem de dinheiro efetuada nos Estados Unidos também precisa ser combatida com rigor.
Sobrou um tema que deixou de ser mencionado nas positivas declarações posteriores dos dois interlocutores, mas que certamente constou do menu: a Venezuela. Será o silêncio, obviamente combinado, uma indicação de absoluto desencontro nas visões de um e outro com respeito ao futuro do regime de Maduro? Ou, como é da praxe diplomática, a omissão terá servido para salvaguardar algum entendimento no sentido de que o Brasil sirva como intermediário na solução da crise?
É bem provável que, nas próximas semanas, veremos progressos nas áreas reconhecidamente discutidas, assim como nessa última que permanece na sombra. Mas o fato fundamental é que existe entre Lula e Trump um diálogo desimpedido e cordial onde antes reinavam a desconfiança e as recriminações de lado a lado.
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