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A afirmação que Shakespeare fez em Hamlet com respeito ao reino da Dinamarca se aplica hoje com mais razão ao Vice-Reino da Venezuela. Na verdade, a sucessão de escândalos que vem marcando a campanha eleitoral em curso está impedindo que a opinião pública brasileira fique ciente do acordo em matéria de petróleo firmado entre aquele país e os Estados Unidos no dia 2 de setembro. No entanto, como se trata do mais gritante exemplo do novo imperialismo proclamado por Donald Trump, é fundamental que todos o conheçam perfeitamente para eliminar o risco de que o Brasil seja também submetido aos desígnios coloniais de quem nos vê apenas como parte de um quintal hemisférico.
Em artigo anterior publicado neste espaço há algumas semanas com o título de “Marco Antonio Rubio, Vice-Rei da América Latina” (Leia aqui), comentei a chamada “Doutrina Donroe” – neologismo que combina Monroe e Donald – e a política externa mafiosa de Trump em que seu secretário de Estado desempenha o papel de proa que assim defini naquela ocasião: “Começando pela retomada do controle efetivo do Canal do Panamá graças à ameaça de ação militar, Rubio foi visto como o grande idealizador da incursão armada na Venezuela que, em janeiro do corrente ano, sequestrou Maduro e sua esposa…Não admira que ele seja hoje o presidente de fato daquele país, uma vez que foram mantidas no poder muitas figurinhas hoje bem-comportadas do velho regime chavista, pois o único interesse dos Estados Unidos não consistia na instauração da democracia, mas, sim, em controlar e explorar para seu benefício próprio as riquezas petrolíferas e minerais venezuelanas.”
Não reivindico nenhum dom profético porque até mesmo as freirinhas do Convento de la Inmaculada Concepción em Caracas sabiam que era conversa fiada aquela ideia de que os “amigos do Norte” desejavam instaurar o regime democrático no país levando enfim à presidência a figura hoje patética de María Corina Machado. Na verdade, o jogo sinistro já estava jogado com Delcy Rodríguez, a presidente interina que vai se eternizando no poder, juntamente com outros antigos caudatários de Nicolás Maduro, porque aceitou ser a marionete de Rubio.
Apesar do óbvio interesse de Trump pelo “ouro negro” venezuelano, a rapacidade evidenciada nos termos do acordo vem causando estupefação até mesmo da parte dos mais calejados comentaristas políticos e econômicos de todo o mundo. Por ele, os Estados Unidos passam a controlar, durante nada menos que 100 anos, o gigantesco volume de 65 bilhões de barris de petróleo, o que corresponde a mais de 20% do total das reservas comprovadas da Venezuela e abrange 17 campos em diversas regiões. Para que não haja dúvida acerca do significado dessa desavergonhada apropriação indébita, traduzo a seguir um trecho de documento (Fact-sheet) expedido pela própria Casa Branca em 31 de agosto: “Graças à maior transação petrolífera na história mundial, o presidente Donald J. Trump assegurou o controle majoritário dos Estados Unidos sobre mais de 65 bilhões de barris de reservas comprovadas de petróleo da Venezuela – incrementando amplamente nossas atuais reservas em território norte-americano de cerca de 46 bilhões de barris. Essa transação garante nossa segurança (dominance) energética ao longo do próximo século – com custo zero para os Estados Unidos.” Repito que são palavras de um comunicado oficial do governo norte-americano apesar de refletirem claramente o espírito megalômano do primeiro mandatário.
O modelo de negócios também provoca imenso espanto. Sem nenhum custo para seus cidadãos, o Governo norte-americano, através do Escritório de Capital Estratégico do Departamento da Guerra, fica com 35% do capital da empresa privada North American Blue Energy Partners (NABEP) à qual foram concedidos os campos petrolíferos pertinentes pelo governo venezuelano. Ainda segundo os termos escorchantes do acordo, a NABEP deu ao Departamento de Estado o direito de comprar 20% de toda a sua produção a preço de custo, que representa algo em torno de US$ 20 por barril quando o preço de mercado antes do fechamento do estreito de Ormuz era da ordem de US$ 65-70. Ademais, o Departamento de Estado tem o direito de primeira recusa com respeito aos 80% restantes, o que, na prática, significa um acordo de suprimento exclusivo.
Não bastassem essas vantagens econômicas incomparáveis a qualquer acerto jamais negociado no setor petrolífero, o governo dos Estados Unidos terá poder de veto no tocante à designação dos membros do Conselho de Administração da NABEP, que em todo caso deverá ser composto em sua maioria por cidadãos norte-americanos. Além disso, a empresa terá auditores, advogados e conselheiros também norte-americanos, sendo governada pelas leis dos Estados Unidos. Por fim, o petróleo será produzido com equipamentos de fabricação norte-americana e processado em refinarias situadas no território dos Estados Unidos. Em contrapartida a todas essas benesses, a Venezuela, tomando como base de referência o preço de US$ 65 por barril, receberá de royalties cerca de US$ 19 por barril. Isso representaria pouco mais de US$ 200 bilhões ao longo dos primeiros 25 anos do acordo – ou seja, míseros US$ 8 bilhões por ano!
Mais estranho ainda é que toda essa complexíssima estrutura de poder e riqueza, projetada para durar por um século, tenha sido confiada a um empresário venezuelano chamado Alejandro Betancourt López cuja reputação foi ou é ainda questionada em muitos países (inclusive até recentemente nos Estados Unidos) por corrupção, lavagem de dinheiro e fraude cambial. Com uma trajetória de negócios iniciada ainda nos tempos de Hugo Chávez, Betancourt criou a NABEP no ano de 2024 em parceria com Harry Sargeant III, empresário norte-americano do setor de energia e importante doador do Partido Republicano. Como já mantinha um relacionamento especial com Delcy Rodríguez há alguns anos, ele participou ativamente da preparação da invasão da Venezuela pelas forças militares norte-americanas e do sequestro de Maduro, auxiliando depois a montar o novo cenário petrolífero de seu país sob o domínio de Trump. Sabe-se lá quem são ou serão os sócios ocultos dessa empresa ou de todas as operações que vêm na esteira do acordo recém-assinado…
São visíveis também os ganhos geopolíticos aparentes que o acordo representa para os Estados Unidos. Antes do sequestro de Maduro, pouco mais da metade do pequeno volume de exportações de petróleo venezuelano tinha a China como destino – muito embora os cerca de 400 mil barris por dia representassem apenas cerca de 4% de suas importações do produto. Nas palavras do secretário do Interior dos Estados Unidos, Doug Burgum, o acordo “desloca o centro geopolítico dos mercados de energia global dos pontos de estrangulamento no Oriente Médio” a fim de trazê-lo de volta para o Hemisfério Ocidental. Todavia, está claro que tal movimento, mais expressivo ainda depois que o Irã se mostrou capaz de paralisar grandes rotas de abastecimento global de petróleo e gás, terá causado grande mal-estar na Arábia Saudita e em seus vizinhos ao reduzir de um golpe a importância estratégica que possuíam. Nesse sentido, paradoxalmente o acordo com a Venezuela pode, em prazo mais longo, aumentar a dependência daqueles países com relação ao mercado chinês e de outras nações asiáticas, reduzindo ainda mais a confiança que antes depositavam nos Estados Unidos como escudo protetor.
Seja como for, o tabuleiro energético mundial foi fortemente abalado, e só em um futuro algo distante poderemos avaliar as consequências reais do acordo pois a maioria dos especialistas acredita que seus efeitos só serão sentidos dentro de 8 a 10 anos caso ocorra o investimento de US$ 100 bilhões necessário a fim de trazer a produção de petróleo venezuelana aos níveis de trinta anos atrás. Muitos duvidam que as grandes petroleiras estejam dispostas a correr tal risco até mesmo devido ao caráter patentemente espoliativo do acordo.
Mas o eleitor brasileiro não pode esperar tanto. Dentro de poucas semanas ele precisará decidir se vamos satisfazer ou não a cobiça de Trump por nossos minerais críticos, sobretudo as terras raras de que os Estados Unidos tão desesperadamente necessitam. O altíssimo preço da vassalagem já é conhecido.