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A direção da Casas Bahia tem duas hercúleas missões neste momento, uma relacionada ao passado da empresa e outra ao seu futuro de curtíssimo prazo. Na primeira categoria, está a renegociação da dívida de R$ 17,3 bilhões incluída na recuperação judicial; na segunda, o desafio de reabrir as torneiras do crédito para financiar a operação. A companhia vem encontrando dificuldades para obter novos recursos junto a bancos em condições aceitáveis. A aridez passa pelos FIDCs, hoje no centro das atenções em razão da exposição à Casas Bahia. A forte dependência desses fundos ajuda a explicar por que o crédito bancário se tornou mais escasso e por que a tarefa de recuperá-lo agora tende a ser ainda mais complexa. Uma parcela crescente do financiamento da varejista passou a ser estruturada por meio de veículos nos quais recebíveis e outros fluxos são destinados à proteção dos investidores. Isso acaba por reduzir o universo de ativos e receitas livres que podem servir de garantia para novos financiamentos. Para os bancos, portanto, a questão não é apenas o aumento do risco provocado pela RJ, mas também quais proteções a Casas Bahia ainda pode oferecer em troca de dinheiro novo.
Os números mostram a velocidade dessa transformação. Entre o fim de 2024 e junho deste ano, as cotas de terceiros nos FIDCs passaram de R$ 903 milhões para R$ 2,016 bilhões. No mesmo período, a dívida financeira bruta caiu de R$ 4,866 bilhões para R$ 2,322 bilhões. No fim de 2024, para cada R$ 1 aplicado por terceiros nos fundos, havia mais de R$ 5 em dívida financeira. Em junho, a relação estava praticamente em um para um.
Os FIDCs ganharam espaço quando o crédito convencional já dava sinais de ressecamento. Depois da reestruturação de aproximadamente R$ 4,8 bilhões em dívidas, em 2024, a Casas Bahia passou a recorrer com maior intensidade a estruturas capazes de atrair recursos mesmo diante de uma percepção maior de risco, combinando subordinação, recebíveis vinculados e remunerações mais elevadas. Em setembro de 2025, por exemplo, a companhia levantou R$ 555 milhões em um FIDC de risco sacado. Foram R$ 328 milhões em cotas seniores e R$ 113,5 milhões em mezanino colocados no mercado, enquanto a própria Casas Bahia ficou com R$ 113,5 milhões em cotas subordinadas, responsáveis por absorver as primeiras perdas. Em março deste ano, houve nova emissão. Dos R$ 200 milhões levantados, R$ 160 milhões vieram de cotas seniores e mezanino oferecidas ao mercado. As primeiras tinham rentabilidade alvo de CDI mais 4,5% ao ano; as mezanino, CDI mais 7,25%.