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O que precisa ser dito
Há alguns anos, o principal desafio da agenda climática era convencer as pessoas de que as mudanças climáticas existiam. Hoje, pelo menos em grande parte da sociedade, o desafio parece ser outro: evitar que a urgência do tema seja substituída pelo sensacionalismo.
Vivemos em uma era de excesso de informação e escassez de atenção. Nesse contexto, os superlativos frequentemente recebem mais destaque do que os fatos. O evento climático deixa de ser apenas um fenômeno natural para se tornar o “mais devastador”, o “sem precedentes”, o “super”. O problema é que, quando a comunicação do risco passa a depender mais da intensidade dos adjetivos do que da qualidade da informação, criamos uma nova armadilha: a erosão da credibilidade.
Isso não significa minimizar os riscos das mudanças climáticas. Pelo contrário. Há evidências científicas cada vez mais robustas de que a ação humana está alterando o sistema climático e aumentando a probabilidade e a intensidade de diversos eventos extremos em diferentes regiões do planeta. O ponto é que uma comunicação eficiente do risco climático exige precisão, contexto e transparência sobre incertezas.
Segundo o Quinto Relatório de Avaliação do IPCC (AR5), publicado em 2014, o risco climático não é determinado apenas pela ocorrência de uma ameaça natural. Ele resulta da interação entre três fatores: ameaça, exposição e vulnerabilidade. A ameaça está relacionada à probabilidade de um evento ocorrer. Já a exposição e a vulnerabilidade consideram quem ou o que pode ser afetado, sua sensibilidade e sua capacidade de adaptação.
Essa distinção é importante porque um mesmo fenômeno meteorológico pode produzir consequências completamente diferentes dependendo das características locais dos sistemas humanos e naturais afetados. Uma chuva intensa não representa necessariamente o mesmo risco para duas cidades distintas ou mesmo para diferentes áreas de uma mesma cidade. Da mesma forma, uma onda de calor pode gerar impactos muito mais severos em regiões ou populações com menor capacidade de adaptação.
Por isso, projeções climáticas e análises de risco climático são exercícios complexos. Elas dependem de múltiplas variáveis locais, da qualidade dos dados disponíveis e da compreensão das vulnerabilidades específicas de cada território. Inundações, secas, ondas de calor, tempestades, furacões, nevascas e tornados podem se combinar de diferentes maneiras, desencadeando efeitos indiretos como proliferação de vetores de doenças, interrupções de serviços essenciais, perdas agrícolas, deslocamentos populacionais, mudanças em ecossistemas naturais e perda de biodiversidade.
Em outras palavras: comunicar risco não é simplesmente anunciar que um evento extremo pode acontecer. É explicar a probabilidade, a magnitude, as vulnerabilidades existentes e os possíveis impactos, de forma que a informação apoie decisões e motive ações de preparação e resposta.
E aí surge um dos maiores dilemas da gestão de riscos.
Se um alerta é emitido cedo demais, com informações ainda incertas, e o evento não se concretiza, parte da população tende a desacreditar futuras comunicações. Aos poucos, instala-se um fenômeno conhecido como “fadiga do alerta”. As pessoas passam a ignorar avisos legítimos justamente quando eles são mais necessários. Por outro lado, se autoridades aguardam evidências mais robustas antes de agir, o tempo para preparação e resposta pode se tornar insuficiente. Entre o alarmismo e a omissão existe uma zona cinzenta difícil de administrar.
Outro aspecto que merece reflexão é a forma como certos fenômenos são apresentados.
Tornou-se comum encontrar manchetes sobre “super secas”, “super tempestades”, “megaciclones” e, mais recentemente, o chamado “super El Niño”, expressão que vem sendo amplamente utilizada em manchetes e redes sociais, apesar de não possuir uma definição científica formal reconhecida internacionalmente. O El Niño é um fenômeno climático natural associado ao aquecimento das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial e ocorre em intervalos irregulares, geralmente entre dois e sete anos. Embora alguns eventos sejam mais intensos do que outros, a expressão “super El Niño” não corresponde a uma classificação oficialmente adotada pela comunidade científica internacional. Ainda assim, seu uso recorrente contribui para reforçar uma percepção de excepcionalidade permanente.
Outras expressões possuem significado técnico. É o caso do chamado “ciclone bomba”, nome popular de um fenômeno conhecido cientificamente como ciclogênese explosiva, caracterizado por uma queda rápida da pressão atmosférica. O termo “bomba”, portanto, não surgiu como recurso de marketing, mas como descrição de um processo meteorológico específico. Mas isso nem sempre fica claro para quem recebe a informação.
O desafio está em encontrar um equilíbrio. Alertas são essenciais. Sistemas de monitoramento, preparação e resposta salvam vidas. Ignorar os riscos climáticos seria irresponsável. Mas transformar toda previsão em uma narrativa de catástrofe iminente também produz efeitos colaterais.
A ecoansiedade é um desses efeitos. Ela é marcada por medo, insegurança e preocupação persistentes diante da crise climática e de seus possíveis impactos. A exposição contínua a mensagens alarmistas pode intensificar esse quadro, gerando paralisia, sensação de impotência e desgaste emocional. Quando o medo substitui a compreensão, a mobilização tende a perder força.
Como na fábula de Pedro e o Lobo, o problema nunca foi a inexistência da ameaça. O lobo era real. O problema começou quando, depois de tantos alarmes, ninguém mais acreditava que ele viria. Com as mudanças climáticas, a lição é semelhante. Os impactos são reais e já fazem parte do nosso cotidiano. Mas enfrentá-los exige mais do que superlativos e manchetes alarmistas. Exige informação de qualidade, confiança na ciência e preparo para agir.
Alertas são fundamentais, mas, por si só, não evitam desastres. Eles precisam estar acompanhados de planejamento, capacidade de resposta e ações locais que reduzam vulnerabilidades antes que o pior aconteça.
Afinal, não precisamos transformar cada nuvem em lobo. Precisamos estar prontos quando ele realmente aparecer.