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Mineração
O empresário Eike Batista parece crer piamente no texto original em Gênesis 3:19, que diz que o ser humano foi feito de pó e ao pó retornará. Batista começou com o ouro e a ele quer voltar. O remake da volta à exploração e à comercialização da “relíquia bárbara”, conforme a famosa crítica aplicada pelo economista John Maynard Keynes ao padrão-ouro monetário, é um projeto que passa por uma coleção extensa de alvarás de pesquisa e decretos de lavra, entre outros documentos e resoluções de ordem legal e burocrática, colhidos pacientemente e com diligência. Digamos que o empresário se preparou para isso. É claro que Batista não volta ao business pelo garimpo. Não é mais jovem para pular de paraquedas e tomar tiro de espingarda nas costas. A operação seria toda mecanizada, com o que há na fronteira para a extração do metal.
Mas quem colocaria dinheiro em mais um dos controversos negócios de Batista? Na Bolsa de Toronto, onde começou tudo, não haveria mais as condições de outrora para a captação dos mega recursos necessários para colocar um projeto aurífero no nível dos maiores do mundo – Batista nunca pensou de forma modesta. Pois bem, o empresário tem se aproximado, com seu raro poder de sedução e venda, dos fundos árabes, principalmente do Mubadala – com o qual já tem um projeto meio megalomaníaco de plantio de uma super cana no Brasil, que permitiria uma produtividade nunca dantes alcançada no planeta. Batista sabe que os árabes foram e são fãs ardorosos do vil metal, conceito usado por grandes escritores, como William Shakespeare e Leon Tolstói, para mostrar como a riqueza muda o comportamento humano. Eles amam o ouro e ainda têm as stablecoins e outras geringonças de meios de pagamento vindo em uma segunda prateleira na sua concepção de riqueza física, verdadeira, concreta.
Batista já declarou que pretende voltar ao ouro. Não é novidade. Só não disse a escala, nem quem são os investidores. Que o Brasil tem ouro, todo mundo sabe. O país ocupa a primeira posição na América Latina, segundo levantamento do World Gold Council, de 2026. É possível, aliás provável, que Eike saiba mais do que a entidade internacional. Não seria novidade. Nos idos dos anos 80, juntamente com o finado empresário Olavo Monteiro de Carvalho, à época um potentado que dividia seus negócios como acionista da Volkswagen Brasil, monopólio da produção de vidro e um dos donos da petroquímica Oxiteno, fundou a TVX, sociedade constituída para exploração do metal na Amazônia e no Amapá. A TVX só faltava adivinhar onde tinha o metal. A empresa logo se notabilizou por ser um mega manancial de ouro, alcançando de forma relâmpago a posição de blue chip na bolsa de valores. Nesse ponto, não custa um dedinho de explicação. O engenheiro Eliezer Batista, ex-presidente da Vale do Rio Doce e pai de Eike, era membro do Conselho do Grupo Monteiro Aranha, holding dos Monteiro de Carvalho. Não é improvável que o pai de Eike, após deixar a companhia, tenha assessorado o filho em relação a localização das reservas auríferas.
Tratava-se de garimpos, e não de jazidas, é bem verdade. Mas Eike farejava o ouro como “os labradores cheiram trufas”, segundo uma das suas expressões prediletas. Mas isso não muda nada. Eike nadou em ouro. E fez do metal o lastro para sua imensa fortuna, perdida posteriormente, conforme se sabe – curiosamente com o “ouro negro”, ou seja, o petróleo. Para o Brasil seria bom que Eike se levantasse novamente de forma grandiosa. O empresário sempre se dedicou a projetos em economia física, notadamente em infraestrutura, e deixou como legado um dos maiores portos do Brasil, localizado no Açu, no Rio de Janeiro. Como ele sempre diz, “só faço projetos grandiosos, no setor real e de longo prazo”. Esses empreendimentos estruturantes estão faltando mais do que ouro para o país.
Em tempo: o mercado parece já precificar o êxito da WEG na execução dessas medidas e na redução dos efeitos das sobretaxas norte-americanas. Na semana passada, as ações da companhia chegaram a avançar quase 10% após a divulgação do balanço do segundo trimestre, mesmo com a queda de 2,1% do lucro líquido, para R$ 1,56 bilhão. A reação indica que os investidores deram mais peso à resiliência das margens, ao crescimento das vendas na América do Norte e à capacidade da empresa de reorganizar sua produção global do que ao impacto imediato do tarifaço. A valorização sugere uma aposta de que a WEG conseguirá transferir parte da fabricação para os Estados Unidos e o México, regionalizar fornecedores e preservar sua competitividade no maior mercado externo da companhia. No atual cenário, é uma proeza.