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Há uma apreensão no governo com o crescente número de paralisações de frigoríficos em todo o Brasil, que atinge desde os grandes conglomerados da proteína animal até pequenas unidades de abate regionais. A preocupação é que os cortes de produção, decorrentes do novo sistema de cotas da China e da consequente queda das exportações ao país asiático, levem a uma onda de demissões na cadeia da proteína animal nos próximos meses. E, o que é pior, em plena campanha eleitoral. Segundo informações filtradas pelo RR, no Ministério da Agricultura já existem discussões sobre a possibilidade de medidas de apoio ao setor, como forma de compensar a redução dos embarques para o mercado chinês e conter o risco de um abate, em grande escala, de postos de trabalho nos frigoríficos. Entre as ideias que pululam no governo está a abertura de linhas emergenciais de capital de giro por meio do BNDES e um reforço do crédito às exportações, guardadas as devidas proporções algo nos moldes do Brasil Soberano, que destina recursos às empresas exportadoras afetadas pelo tarifaço de Donald Trump. Outra iniciativa em análise é acelerar a análise dos pedidos de habilitação de plantas para novos destinos e os processos de auditoria e inspeção das unidades de abate, agilizando, assim, a emissão de certificados sanitários.
A China fixou uma cota anual de 1,106 milhão de toneladas para a carne bovina brasileira. Dentro desse limite, o produto paga a tarifa regular de 12%. Acima dele, incide uma sobretaxa de 55%, elevando a tributação total para 67% e tornando os embarques comercialmente inviáveis. O teto representa um corte de 35% em comparação ao volume total exportado pelo Brasil para a China no ano passado – 1,7 milhão de toneladas. Ou seja: praticamente de uma hora para a outra, os frigoríficos viram as portas se fechar para mais de um terço das vendas para os chineses, de longe os maiores compradores de carne bovina brasileira no mundo. O Itamaraty tem se empenhado em abrir novos mercados para compensar essa perda. A prioridade é o Japão. As negociações avançaram após o reconhecimento do Brasil como país livre de febre aftosa sem vacinação e ganharam impulso com a visita do presidente Lula a Tóquio e a realização de missões técnicas entre os dois países. Ainda assim, o mercado permanece fechado. A conversão dessas tratativas em contratos comerciais costuma demorar. Os frigoríficos têm de encontrar importadores, negociar volumes, preços e prazos, adaptar cortes e embalagens às exigências locais e organizar uma nova estrutura logística. É tempo demais para empresas que já operam com abates reduzidos e margens comprimidas. Antes que os novos mercados se traduzam em receita, parte delas poderá ser obrigada a cortar turnos, suspender contratos e reduzir o quadro de funcionários.
O governo tem razões para estar preocupado com o risco de demissões em massa no setor no curto prazo. Frigoríficos dos mais diversos portes vêm adotando medidas restritivas, como interrupção de linhas de produção, redução do número de abates e férias coletivas. A JBS concedeu férias, inicialmente por 20 dias e prorrogáveis por mais dez, nas unidades de Colíder e Juara, em Mato Grosso. A companhia também suspendeu a fabricação de determinados cortes destinados especificamente ao mercado chinês. A Frigol paralisou por 18 dias sua unidade de Água Azul do Norte, no Pará, atingindo quase mil funcionários. A fábrica abate cerca de 1.250 bovinos por dia e destinava aproximadamente 70% da produção à China. A empresa prevê manter a operação entre 30% e 40% abaixo do nível anterior. A Iguatemi Beef concedeu férias coletivas a 650 dos 850 empregados de sua unidade em Iguatemi, no Mato Grosso do Sul. A Plena Alimentos colocou cerca de 1,5 mil trabalhadores em férias coletivas durante 21 dias úteis em suas plantas de Goiás e Tocantins. A Better Beef interrompeu a produção em Araçatuba, no interior de São Paulo, entre 20 de julho e 10 de agosto. Por ora, os afastamentos de trabalhadores têm sido, em sua maioria, temporários. Mas para o temporário virar permanente não custa muito.