Fragilidade da Defesa deixa o Brasil sujeito a invasões terrestres – Relatório Reservado

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Fragilidade da Defesa deixa o Brasil sujeito a invasões terrestres

  • 19/08/2026
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O Brasil está refém de uma invasão territorial norte-americana. Quem o diz, com todas as letras, é Celso Amorim, principal assessor de Lula para a área de política externa e ex-ministro das Relações Exteriores e da Defesa. A entrevista de Amorim ao Valor Econômico, na última segunda-feira, ressoou como um alerta à nação. O diplomata colocou publicamente na mesa a possibilidade de ações militares dos Estados Unidos na América do Sul e do risco dessas manobras transbordarem para o território brasileiro. “Eu não quero ser alarmista, mas você olha essa situação e se preocupa. Você vê a coloração do mapa, sobra o Uruguai, talvez a Guiana. Confesso que me preocupei com o Paraguai, que fechou os acordos SOFA [Acordo do Estatuto das Forças, na sigla em inglês, que estabelece regras para presença de militares americanos em outros países] e que também definiu Comando Vermelho e o PCC como organizações terroristas. Fico preocupado que possa haver alguma coisa, espero que não, mas, enfim, é preocupante.” Para quem não queria ser “alarmista”, Amorim fez um chamamento nacional. Suas declarações dão uma dimensão jamais conferida à escalada das tensões diplomáticas entre Brasil e Estados Unidos.

O cenário descrito por Celso Amorim não pode ser tratado como uma abstração. Suas falas refletem a efervescência dos Altos-Comandos militares diante do crescente estado de fricção com os Estados Unidos e das notórias fragilidades do Brasil na área de Defesa. A isso se somam o precedente aberto pela incursão norte-americana na Venezuela, o avanço da presença militar de Washington no entorno regional, a classificação de facções brasileiras como Foreign Terrorist Organizations (FTOs), ou Organizações Terroristas Estrangeiras, e a deterioração acelerada das relações entre Brasília e a Casa Branca. Não é exagero dizer que esse conjunto de circunstâncias representa à maior a integridade territorial do país desde 1964. Naquele ano, em meio à derrubada de João Goulart, Washington colocou em marcha a Operação Brother Sam e mobilizou em direção ao país uma força-tarefa de 12 embarcações, formada pelo porta-aviões USS Forrestal, seis destróieres, um navio de transporte de helicópteros e quatro petroleiros de apoio, além de armamentos e munições. A esquadra não chegou à costa brasileira: o rápido desfecho do golpe tornou desnecessário o apoio militar preparado pelos Estados Unidos para o caso de resistência ao movimento contra Jango. Ainda assim, foi um momento de tensão em que a soberania do território brasileiro esteve por um triz. Antes, em 1942, na Segunda Guerra Mundial, essa “campo de força” foi quebrado quando um submarino alemão atacou seis embarcações nacionais em águas sob jurisdição do Brasil, junto ao litoral de Sergipe e da Bahia.

Durante décadas, o cenário permitiu a sucessivos governos varrer as vulnerabilidades do aparelho de Defesa nacional para debaixo do tapete sob um argumento confortável: o país estava distante dos principais teatros de guerra, instalado em uma região sem conflitos interestatais relevantes e sem inimigos militares declarados. Esse colchão estratégico ficou muito mais fino depois de 3 de janeiro, quando os Estados Unidos demonstraram na Venezuela até onde estão dispostos a ir. A operação para capturar Nicolás Maduro mobilizou cerca de 150 aeronaves a partir de 20 pontos, entre caças F-22 e F-35, bombardeiros B-1, drones, aviões de reabastecimento, equipamentos de guerra eletrônica, helicópteros e forças especiais. Washington preparou durante meses uma ação dentro do território venezuelano, neutralizou capacidades militares locais, chegou a Caracas e retirou Maduro do país. Há ainda um componente especialmente relevante e preocupante: a ofensiva contra Maduro foi associada em grande medida às acusações de narcotráfico e criminalidade, e não simplesmente apresentada como uma guerra convencional entre Estados. A classificação do PCC e do CV como grupos terroristas cria um paralelismo com a Venezuela. Não que Trump precise de justificativa para invadir o terreno alheio. Mas, se quiser, a alegação já está impressa em papel timbrado.

Trump e Marco Rubio não fazem segredo da visão que têm da América Latina. Esse é um terreno que tem dono. Depois da Venezuela, Cuba é o alvo evidente. A tomada da ilha e a mudança do regime cubano estão no centro das prioridades regionais da Casa Branca e do Departamento de Estado. Tudo isso ocorre simultaneamente à deterioração das relações entre Brasília e Washington, marcada por tarifas, retaliações diplomáticas, disputas em torno do Judiciário brasileiro, restrições de vistos, aproximação do Brasil com Pequim e divergências sobre a arquitetura política da América Latina.

Há assuntos dos quais o Brasil já não pode se dar ao luxo de fugir. A possibilidade de ações militares estrangeiras no continente e a vulnerabilidade do aparelho de Defesa nacional tornaram-se temas candentes nos principais círculos de formulação estratégica do país. O RR teve acesso a trechos de um “white paper” elaborado pelo Cebri (Centro Brasileiro de Relações Internacionais) em que essas questões aparecem de forma incisiva. Ao analisar o novo ambiente de segurança internacional, o texto cita a “incursão na Venezuela” entre os episódios que “evidenciam a maior fragilidade da soberania territorial das nações” e adverte que “crescentes pressões políticas, econômicas e comerciais ameaçam a autonomia decisória das nações”. Na sequência, vem a advertência mais sensível: “Potências estrangeiras já classificam organizações criminais segundo categorias jurídicas que podem autorizar ação extraterritorial.” Como mitigar esse risco? Na avaliação do Cebri, “a adoção de uma doutrina de ‘defesa por negação’ pode ser um caminho a ser discutido no Brasil. Como critério ordenador, ela pode subordinar cada aquisição a uma concepção explícita de emprego e privilegiar sensores, munições guiadas, sistemas autônomos, defesa cibernética e consciência situacional do Atlântico Sul e da Amazônia.”  

É de se esperar que as discussões em núcleos de formulação e debate estratégico tragam mais lucidez em relação ao tensionamento das relações diplomáticas entre Brasil e Estados Unidos e seus possíveis e preocupantes desdobramentos. A lucidez, diga-se de passagem, que o governo não tem demonstrado. Há uma boa dose de irresponsabilidade na maneira como a gestão Lula vem tratando de um assunto de tamanha gravidade, tanto pela vertente diplomática quanto pela militar. Na mesma entrevista, ao tratar da precariedade militar brasileira, Amorim defendeu que o país eleve para 2,5% do PIB os recursos destinados à Defesa. É a mesma cantilena tantas vezes entoada por membros do governo. A começar pelo próprio Lula. No ano passado, ao sancionar a Lei Complementar 221, que permite excluir das regras fiscais, por seis exercícios, até R$ 5 bilhões por ano destinados a projetos estratégicos de Defesa, o presidente tonitruou que era prioridade aumentar os investimentos militares. Mais recentemente, em junho, portanto já em um ambiente de avanço nas fricções com os Estados Unidos, bravateou: “Eu quero as Forças Armadas bem-preparadas do ponto de vista do poderio, de armamento, de conhecimento científico e tecnológico […] preparados para não deixar ninguém meter o nariz nesse país.” Em 2023, em audiência na Câmara, o ministro da Defesa, José Múcio, apontou que o orçamento da Defesa, então em torno de 1,12% do PIB, estava “bem aquém” do patamar de 2% do PIB usado como referência pela Otan. Sobram diagnósticos, faltam medicamentos. Ora, se há tanta preocupação assim por parte do governo com a tibieza militar do Brasil, então que se gaste mais dinheiro. Um bom ponto de partida seria capar as emendas parlamentares. Os R$ 50 bilhões colocados à disposição dos parlamentares em 2026 pagariam dez anos dos gastos militares colocados fora do Orçamento.

O gasto militar mundial chegou a US$ 2,887 trilhões em 2025, segundo o Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI), o maior valor já registrado pela instituição e o 11º aumento anual consecutivo. A média global alcançou 2,5% do PIB – olha aí o percentual defendido por Celso Amorim. O gasto brasileiro ficou muito abaixo disso: US$ 23,9 bilhões, equivalentes a aproximadamente 1,1% do PIB. Em termos de Defesa, o Brasil, com seus 8,5 milhões de Km2 e 24,5 mil km de fronteiras terrestres e marítimas a serem protegidas, é minúsculo dentro do seu próprio quintal. No ano passado, Colômbia, Uruguai e Equador, por exemplo, destinaram às suas Forças Armadas, respectivamente, 3,2%, 2,28% e 2,1% do PIB. Deputados e senadores podem perfeitamente viver com menos asfalto, ambulâncias, pontes e todas as insondáveis destinações das emendas e remendos no Orçamento. O que não dá mais é continuar protegendo a integridade territorial do Brasil apenas com palavras. Soberania custa caro.

 

#Forças Armadas #PCC

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