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O que precisa ser dito
A entrevista de Miguel Díaz-Canel a Mônica Bergamo confirma as tensões examinadas em “Cuba 2026: a alma em transe e a espada de Dâmocles”
Em abril de 2026, quando publiquei no Relatório Reservado o artigo “Cuba 2026: a alma em transe e a espada de Dâmocles”, a Ilha já se encontrava diante de uma convergência crítica: colapso econômico, exaustão institucional, crise energética, fadiga social e pressão geopolítica. A espada permanecia suspensa sobre um país compelido a escolher entre resistir, transformar-se ou sucumbir.
Quatro meses depois, a contundente entrevista concedida pelo presidente Miguel Díaz-Canel à jornalista Mônica Bergamo, publicada no domingo, 23 de agosto, na Folha de S.Paulo, converte aquela análise em testemunho direto do poder. As perguntas firmes, objetivas e incisivas da jornalista expõem as contradições que atravessam Cuba: o bloqueio norte-americano e o próprio bloqueio interno; a defesa do socialismo e a abertura ao capital privado; o orgulho da resistência e a exaustão do povo; a coragem declarada pelo governante; e o sacrifício cotidiano imposto à população.
A entrevista não retrata somente a crise de um país. Revela uma disputa sobre quem terá o direito de escrever o próximo capítulo da História cubana.
A asfixia como instrumento de poder
Díaz-Canel descreve uma nação asfixiada. Faltam combustível, energia, água, alimentos, medicamentos e transporte. Os apagões podem estender-se por até 20 horas. O lixo permanece dias nas ruas. O cotidiano deixou de expressar mera escassez econômica: converteu-se em prova permanente de sobrevivência.
O bloqueio imposto pelos Estados Unidos, intensificado sob o governo de Donald Trump, é real, severo e moralmente indefensável. Sanções que atingem energia, saúde, alimentação e condições elementares de existência ultrapassam o confronto diplomático. Quando uma população inteira é empregada como instrumento de pressão contra um governo, a política externa perde legitimidade e assume a feição de punição coletiva.
Díaz-Canel classifica essa estratégia como um “genocídio silencioso”. A expressão é extrema, mas traduz a gravidade de um método que procura produzir desorganização econômica, sofrimento social e ruptura política por meio da privação. Não se trata de vencer uma controvérsia diplomática, mas de reduzir progressivamente as condições materiais de vida até que o esgotamento da população provoque a queda do regime.
Nenhuma potência detém autoridade política, jurídica ou moral para decidir o destino de outra nação mediante a fome, a doença, a escuridão e a privação de bens essenciais. A soberania dos povos não constitui concessão dos mais fortes: integra os fundamentos da ordem internacional.
A população cubana não pode continuar como refém de uma disputa em que as grandes decisões são tomadas longe de suas casas, enquanto os efeitos recaem sobre suas mesas vazias, seus hospitais desabastecidos e suas noites sem luz.
O outro bloqueio
Reconhecer a violência do cerco externo, entretanto, não autoriza absolver o poder interno de suas responsabilidades. Esse é um dos pontos centrais de convergência entre meu artigo e a entrevista conduzida por Mônica Bergamo.
Ao afirmar que muitos cubanos identificam também um “bloqueio interno”, caracterizado pela burocracia, pela lentidão das reformas e pelas restrições políticas, a jornalista desloca o debate do conforto das narrativas absolutas para o terreno incômodo da realidade.
Díaz-Canel reconhece erros, insatisfações e entraves administrativos, mas sustenta que o bloqueio norte-americano permanece como causa determinante da crise. As duas afirmações podem coexistir.
Cuba é vítima de uma política externa opressiva e, simultaneamente, de estruturas internas que perderam capacidade de responder às transformações sociais e econômicas. O embargo explica muito, mas não explica tudo.
A centralização decisória, a baixa produtividade, a lentidão administrativa, a insegurança econômica, a insuficiência dos canais de participação e a resistência institucional às mudanças também cobram seu preço.
A soberania de uma nação não se protege somente contra forças estrangeiras. Preserva-se igualmente quando o Estado escuta sua população, reconhece seus limites, amplia as liberdades e reforma suas instituições antes que a realidade o faça de forma abrupta.
O bloqueio externo restringe recursos. O bloqueio interno paralisa respostas. Quando ambos se encontram, o resultado é um país submetido à dupla compressão da História.
O capitalismo convocado para salvar o socialismo
É nesse ponto que surge uma das passagens mais provocativas da entrevista. Mônica Bergamo pergunta, em essência, se seria necessário promover o capitalismo para salvar o socialismo. A indagação alcança o coração do paradoxo cubano.
O governo aprovou um pacote de 176 medidas econômicas que amplia, de forma inédita, o espaço do setor privado. Empresários poderão manter mais de dois negócios, contratar mais de cem empregados e formar conglomerados. Ações poderão ser negociadas livremente. Companhias estrangeiras poderão explorar terras por até 99 anos, em regime de usufruto. Trata-se de uma abertura que, poucos anos antes, pareceria inconcebível dentro da estrutura econômica da Ilha.
Díaz-Canel rejeita a hipótese de uma guinada capitalista. Afirma que Cuba permanece em processo de construção socialista e que o povo não permitiria o retorno do capitalismo.
Os sistemas políticos e econômicos, contudo, não sobrevivem somente pelo nome que o poder lhes atribui. São definidos pela realidade das relações de produção, pela distribuição das oportunidades e pela forma como riqueza, liberdade e poder circulam na sociedade.
Se existem propriedade privada, empregadores, empregados, acumulação empresarial, negociação de ações e exploração econômica estrangeira de longo prazo, a questão deixou de ser se elementos capitalistas ingressarão no modelo cubano. Eles já ingressaram. O verdadeiro debate consiste em saber quem os regulará, quem deles se beneficiará e se a abertura reduzirá desigualdades ou produzirá novas formas de concentração econômica e influência política.
Cuba procura reformar sua economia sem renunciar à identidade construída pela Revolução. Esse movimento não representa necessariamente capitulação. Pode constituir adaptação legítima e indispensável.
O perigo surge quando a abertura econômica avança desacompanhada de transparência, segurança jurídica, governança, controles institucionais e participação social. Sem essas salvaguardas, a transição poderá substituir antigas concentrações de poder por novas elites econômicas, preservando a desigualdade sob outra linguagem.
O socialismo cubano, para sobreviver, convoca mecanismos de mercado. O mercado, para não capturar o país, precisará submeter-se a regras capazes de proteger a soberania, o patrimônio nacional e a dignidade da população. Eis o novo campo de batalha.
Quem tem o direito de exigir sacrifício?
A entrevista alcança sua dimensão mais humana quando Díaz-Canel afirma que Cuba “está em pé e não se rende”. A frase recupera a força simbólica de uma Revolução construída sobre independência, orgulho nacional e resistência.
Mônica Bergamo, porém, devolve ao discurso a concretude da vida: um povo privado de água, energia, alimentos, medicamentos e combustível estaria realmente disposto a morrer pela Revolução?
A pergunta rompe a solenidade da narrativa oficial.
Nenhum governo pode presumir, em nome da História, a disposição de seu povo para o sacrifício. A resistência conserva grandeza quando protege a vida, a dignidade e a autodeterminação. Quando exige sofrimento indefinido sem oferecer horizonte de transformação, corre o risco de converter a coragem coletiva em instrumento de permanência do poder.
Há diferença fundamental entre um povo que decide resistir e um poder que decide, em nome desse povo, quanto sofrimento ele deverá suportar.
Cuba edificou sua identidade política sobre a recusa à submissão. Essa memória não pode ser desprezada. A Revolução produziu conquistas sociais, enfrentou desigualdades históricas, ampliou o acesso à educação e à saúde e consolidou um forte sentimento de nacionalidade. Também ergueu estruturas de controle, restringiu liberdades e retardou reformas que se tornaram inevitáveis.
A História cubana não cabe em absolvições integrais nem em condenações sumárias. Exige coragem intelectual para reconhecer, simultaneamente, a violência externa e as responsabilidades internas.
Coragem sem covardia
A tensão atinge seu ponto máximo quando Mônica questiona Díaz-Canel sobre a possibilidade de uma intervenção norte-americana e sobre o destino pessoal do presidente diante de uma eventual ação militar.
A resposta é categórica: “Se chegar a minha hora, chegou. Mas não vai ser com fraqueza e covardia. Vai ser lutando.”
A frase concentra a passagem mais contundente da entrevista. Nela se encontram a coragem pessoal, o dever político, a memória revolucionária e a recusa à capitulação. Díaz-Canel apresenta-se como governante disposto a permanecer em Cuba e lutar até o fim.
Essa disposição, contudo, amplia sua responsabilidade.
Coragem não pode significar obstinação. Resistência não pode confundir-se com imobilidade. Lutar até o fim não deve equivaler a conduzir uma população exaurida ao limite de suas forças. A firmeza de um governante mede-se pela disposição de enfrentar o agressor, mas também pela capacidade de reconhecer falhas, corrigir rumos e impedir que o povo pague, sozinho, o preço da História.
A coragem diante do inimigo externo precisa encontrar correspondência na coragem de enfrentar os próprios erros. Resistir à pressão estrangeira exige dignidade. Reformar o Estado, ampliar liberdades, controlar privilégios e dividir o poder também exige coragem.
Lutar por Cuba não significa necessariamente conservar intactas todas as estruturas existentes. Pode significar transformá-las para que o país sobreviva sem perder sua alma.
Entre a soberania e a sobrevivência
Em “Cuba 2026: a alma em transe e a espada de Dâmocles”, sustentei que a Ilha se encontrava entre duas ameaças: a intervenção externa, que violaria sua soberania, e a paralisia interna, que poderia comprometer sua sobrevivência. A entrevista de Mônica Bergamo confirma que essa tensão se aprofundou.
Os Estados Unidos não detêm legitimidade para definir o futuro político de Cuba. A Ilha, por sua vez, não pode transformar a agressão estrangeira em justificativa permanente para adiar mudanças indispensáveis. Entre a submissão externa e a imobilidade interna existe um caminho mais difícil: reforma soberana, abertura econômica responsável, proteção social, transparência, participação popular, liberdade política progressiva e reconstrução institucional.
Esse caminho não oferece o conforto das respostas prontas. Exige que o governo cubano preserve conquistas sociais sem manter estruturas ineficientes; aceite investimentos sem vender o país; amplie a iniciativa privada sem criar oligarquias; dialogue com os Estados Unidos sem se subordinar; e reconheça a diversidade de sua população sem tratar toda divergência como ameaça contrarrevolucionária. A soberania que impede a submissão externa deve ser a mesma que garante ao povo cubano o direito de escolher seu destino.
A espada permanece suspensa
A espada de Dâmocles continua sobre Cuba, sustentada por um fio ainda mais frágil. De um lado, o cerco norte-americano ameaça levar a economia e a população ao limite. De outro, as contradições internas exigem decisões que já não admitem adiamento. Entre ambos permanece o povo cubano: protagonista histórico, jamais peça descartável de estratégias geopolíticas, doutrinas econômicas ou narrativas oficiais.
Convido Mônica Bergamo à leitura de “Cuba 2026: a alma em transe e a espada de Dâmocles”. Seu rigoroso diálogo com Díaz-Canel converge, de maneira impressionante, com as questões que examinei naquele artigo e acrescenta a elas a voz direta de quem governa uma nação colocada no limite entre resistência, transformação e ruptura.
Como adverti naquela análise, o risco ultrapassa o eventual fim do regime: reside na conversão de Cuba em mercadoria geopolítica, plataforma de negócios e vitrine de uma normalização edificada sobre os escombros de sua soberania, de sua identidade e da dignidade de seu povo.
A entrevista publicada pela Folha de S.Paulo não encerra o debate. Torna-o mais urgente. Díaz-Canel afirma que, se sua hora chegar, enfrentará o destino sem fraqueza nem covardia, lutando.
Essa coragem declarada encontra a conclusão inevitável de meu artigo: Cuba não deve capitular diante da força estrangeira, mas também não pode render-se às próprias limitações.
Lutar até o fim somente terá sentido se o fim não for o sacrifício do povo cubano, mas a preservação de sua soberania, de sua dignidade e de seu direito de escolher o próprio destino. A espada permanece suspensa.
Quando o fio se romper, encontrará Cuba paralisada sob a lâmina ou mobilizada, com coragem e lucidez, para retirá-la de sobre sua História?