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Agronegócio
A bancada ruralista aumentou a fervura sobre o governo Lula pela adoção de novas barreiras à importação de leite em pó. Parlamentares e entidades do setor têm pressionado o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio para a efetiva aplicação de medidas antidumping contra Argentina e Uruguai, hoje suspensas. O temor é que um problema que já vem derrubando preços e margens no campo ganhe um novo combustível vindo do outro lado do mundo: a China está reduzindo sua dependência de leite em pó importado, liberando volumes de grandes exportadores para disputar outros mercados. Esse movimento tende a criar um efeito dominó sobre o Brasil, devido ao aumento da oferta mundial. A dimensão dessa mudança é expressiva. Em 2022, a China chegou a importar quase 845 mil toneladas de leite em pó integral. No ano seguinte, as compras despencaram para cerca de 430 mil toneladas. Mesmo com alguma recuperação posterior, as importações ficaram em aproximadamente 460 mil toneladas em 2025, quase 385 mil toneladas abaixo do pico. É um volume equivalente a mais de duas vezes todas as importações brasileiras previstas de leite em pó integral e desnatado em 2026, estimadas em cerca de 184 mil toneladas. E a pressão tende a continuar: as projeções apontam nova redução das compras chinesas neste ano, diante da demanda mais fraca e da maior substituição por produção doméstica.
O setor já chega a essa nova ameaça bastante pressionado. Desde 2023, as importações brasileiras de lácteos permanecem em níveis historicamente elevados, tendo Argentina e Uruguai como principais fornecedores. Em 2025, o volume importado manteve-se entre os maiores da série histórica. A entrada de leite estrangeiro tem efeito especialmente forte porque o produto em pó funciona como uma espécie de regulador do mercado: convertido em equivalente-leite, cada tonelada representa milhares de litros que deixam de ser adquiridos de produtores brasileiros.
O impacto aparece na porteira do produtor. O preço recebido pelos pecuaristas encerrou 2025 acumulando queda de aproximadamente 25%, segundo a CNA, e chegou, em dezembro, ao menor nível real desde fevereiro de 2018. Para as entidades do setor, os elevados volumes importados foram um dos principais responsáveis pela deterioração das margens. A CNA sustenta que o leite em pó argentino e uruguaio vinha sendo vendido ao Brasil abaixo dos preços praticados nos próprios mercados de origem.
O próprio governo reconhece o problema. Em maio, o Gecex aprovou a aplicação de direitos antidumping definitivos sobre o leite em pó da Argentina e do Uruguai. A investigação do MDIC havia encontrado margens de dumping de até 60% para o produto argentino e 50% para o uruguaio, além de dano à indústria brasileira. Os direitos calculados chegaram a US$ 4.183 por tonelada para determinados exportadores argentinos e US$ 4.197 para uruguaios. Ocorre que, ao formalizar a medida, no início de junho, o governo suspendeu imediatamente a cobrança das sobretaxas por razões de interesse público e abriu uma avaliação específica sobre o tema. Mais de dois meses depois, o processo ainda não foi concluído. Até agora, não houve nova decisão do Gecex determinando a entrada em vigor das tarifas, e o próprio MDIC continua classificando oficialmente o antidumping sobre o leite argentino e uruguaio como “medida suspensa”. Essa indefinição aumenta ainda mais as borbulhas no relacionamento entre os produtores e o governo.