ANS monitora com preocupação os sinais vitais da Geap Saúde – Relatório Reservado

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ANS monitora com preocupação os sinais vitais da Geap Saúde

  • 3/09/2026
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A ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) está acompanhando com lupa a Geap Saúde. No órgão regulador, há uma preocupação com os problemas financeiros e assistenciais da operadora, que administra uma carteira com mais de 400 mil vidas, formada por servidores públicos federais, aposentados e seus familiares. Segundo informações filtradas pelo RR, a diretoria da ANS já estaria discutindo medidas administrativas mais contundentes diante do agravamento da crise da Geap. O cardápio da Agência para casos similares vai de instrumentos de recuperação até providências bem mais pesadas, como direção técnica e fiscal e, nas situações mais extremas, retirada ordenada do mercado, alienação da carteira e liquidação extrajudicial. O que mobiliza a ANS é o risco de, no limite, quase meio milhão de pessoas ficarem sem serviços médicos. Em sequência, hospitais e clínicas vêm suspendendo ou encerrando atendimentos aos beneficiários da Geap. A Rede D’Or tem mais de R$ 200 milhões a receber da empresa e suspendeu a prestação de serviços a clientes do plano em 28 unidades, além de romper contratos com outras seis. A Beneficência Portuguesa e o Hospital das Clínicas da USP, por meio de suas fundações de apoio, Fundação Faculdade de Medicina (FFM) e Fundação Zerbini (FZ), também restringiram ou paralisaram a realização de consultas e exames. No Rio de Janeiro, o Grupo Pronto Baby, especializado em pediatria, comunicou aos pacientes que deixaria de receber beneficiários da Geap.

Procurado pelo RR, o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HCFMUSP) confirma que “os atendimentos foram suspensos em junho deste ano de 2026 até que a situação seja regularizada”. O HCFMUSP informou que “a Geap Saúde mantinha dois contratos de prestação de serviços de saúde suplementar por meio de suas fundações de apoio. No caso da Fundação Faculdade de Medicina (FFM), a operadora realiza, desde 2023, pagamentos parciais de faturas vencidas, além de promover glosas hospitalares consideradas indevidas e aplicar descontos não previstos contratualmente. No que diz respeito às pendências, o hospital diz que “As partes mantêm negociações”. Ainda segundo o Hospital das Clínicas, “em relação à Fundação Zerbini (FZ), a inadimplência e as glosas hospitalares consideradas indevidas persistem desde 2024, acumulando valores expressivos em aberto. Após o esgotamento de todas as tentativas de solução consensual, a Fundação rescindiu o contrato por justa causa e ajuizou ação judicial para a cobrança dos valores devidos e a reparação dos prejuízos”. Também consultada, a BP disse ao RR que “não divulga informações relacionadas a contratos, negociações ou condições comerciais firmadas com operadoras e administradoras de planos de saúde em respeito às cláusulas de confidencialidade entre as partes”. O RR encaminhou uma série de perguntas à Geap e fez seguidas tentativas de contato com a empresa, por intermédio do e-mail, do telefone e do WhatsApp da assessoria de imprensa disponíveis no site, mas não obteve retorno até o fechamento desta matéria.

A Geap é uma fundação de direito privado, sem fins lucrativos, classificada como operadora de autogestão multipatrocinada, com atuação em todo o território nacional. Em três anos, teve um crescimento de 45% em sua carteira de clientes. Em 2025, seu faturamento chegou a R$ 5,5 bilhões. As dificuldades financeiras da empresa atingem em cheio o funcionalismo público do governo federal. São mais de 180 órgãos patrocinadores/conveniados, entre ministérios, autarquias, fundações, universidades e outros entes públicos.

Os problemas já ganharam dimensão nacional. Em reunião com a direção da operadora, no fim de julho, a Federação Nacional dos Sindicatos dos Trabalhadores em Saúde, Trabalho, Previdência e Assistência Social (Fenasps) relatou dificuldades enfrentadas por beneficiários em todo o país em razão da suspensão de atendimentos por prestadores. Segundo a entidade, a situação é ainda mais grave entre usuários dos planos de menor cobertura, sobretudo no interior. A Fenasps também relatou demora na liberação de procedimentos, especialmente os de alto custo.

Em contato exclusivo com o RR, a ANS informou que “desde julho de 2024, a Geap vem sendo acompanhada por meio de uma Ação Planejada de Fiscalização, medida aplicada a operadoras que apresentam desempenho insatisfatório ou elevado volume de reclamações”. Na prática, significa que a operadora já está um degrau acima da supervisão ordinária feita pelo órgão regulador. Ou seja, deixou de ser observada apenas pelos mecanismos rotineiros de fiscalização da Agência e passou a ser objeto de uma ação individualizada. De acordo com a própria ANS, apenas entre janeiro e julho deste ano o número de reclamações protocoladas contra a Geap chegou a 5.193, um aumento de 57% na comparação com o total de queixas durante todo o ano de 2025 (3.315).

Perguntada especificamente sobre a possibilidade de adotar “ações mais agudas” contra a Geap, a ANS nem confirmou nem negou. Disse oficialmente que “a operadora está sendo acompanhada em razão da identificação de anormalidades de natureza assistencial e estamos demandando as explicações e ações pretendidas para correção das anormalidades”. A título de referência, em seu relatório anual mais recente, o órgão informou que, entre as operadoras submetidas às ações planejadas de fiscalização em 2023 e 2024, duas acabaram em regime especial de direção técnica e outras quatro deixaram o mercado por incorporação ou retirada ordenada determinada pela Agência. Questionada se a Geap tem cumprido “integralmente os requisitos regulatórios relativos a patrimônio, provisões técnicas, ativos garantidores e capital regulatório”, a ANS informou que “esses aspectos fazem parte do monitoramento econômico-financeiro realizado pela ANS. Tais informações estão protegidas por sigilo empresarial e não podem ser detalhadas”.

O jogo, no entanto, ainda está sendo jogado. A Geap vem tentando reagir por meio de uma série de movimentos recentes. Em maio, a operadora fechou acordo de reciprocidade com a Unimed Nacional, prevendo a incorporação gradual de 177 mil prestadores, entre médicos, hospitais, clínicas e laboratórios. Em reunião com a Fenasps no fim de julho, representantes da Geap disseram que estavam realizando pagamentos a prestadores e que a rede compartilhada com a Unimed já alcançava dez estados, com previsão de expansão. A federação, por sua vez, relatou que as dificuldades persistiam, com suspensão de atendimentos, demora na autorização de procedimentos de alto custo e problemas especialmente severos entre usuários dos planos de menor cobertura.

A ofensiva para recompor a capacidade assistencial ganhou outras frentes. Também em maio, a Geap ampliou sua parceria com a Amil Total Care, incorporando 20 hospitais e aproximadamente 2,2 mil leitos à rede, 13 deles em São Paulo e cinco no Rio de Janeiro. Mais recentemente, no fim de agosto, anunciou uma expansão do acordo com a Hapvida, com a entrada de mais de 70 hospitais e 5 mil leitos em 17 estados e no Distrito Federal.

#ANS

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