Categoria: Opinião
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Opinião
Fernando Haddad compete, compete, compete e cumpre sua inglória missão
12/08/2026- [addtoany]
O ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad tem servido ao presidente Lula e ao PT como um perdedor de plantão em diversas eleições. Haddad é o que poderia se chamar de “palanqueiro raiz”. Entra nas disputas para criar um palanque para Lula ou a presença do PT nos certames e tirar algum quinhão de votos do adversário à frente nas pesquisas. Se não houver uma virada inesperada, essa será novamente sua função na disputa com Tarcísio Freitas pelo governo do estado de São Paulo. É o vaticínio e a profecia da inflação de pesquisas que assola o cenário eleitoral. Já é um fato antecipado.
Haddad é o que se pode chamar de um executivo de proa e um candidato de popa. Não há nenhuma crítica nisso. Pelo contrário. Ele cumpre o que se propõe. Suas atuações como ministro, tanto na Educação quanto na Fazenda, são elogiáveis. Mas, como participante de disputas a cargos políticos mais altos, seu histórico é claudicante.
Haddad tem uma única vitória nas tantas eleições das quais participou: a Prefeitura de São Paulo, em 2012, no 2° turno, contra o senador José Serra. Depois, perdeu sucessivamente a eleição municipal de 2016, no 1° turno, para João Doria; a eleição presidencial de 2018, no 2° turno, para Jair Bolsonaro; e a eleição estadual de São Paulo de 2022, no 2° turno, para o seu novamente adversário, Tarcísio. A história, é quase certo, não vai se repetir sob a forma de farsa, como dizia o velho Karl Marx. Se não ocorrer um fato inusitado, Haddad perde novamente. Seu destino já estaria traçado: em caso de reeleição de Lula, assumiria a Casa Civil, a aposta no próprio PT, ou mesmo retornaria à Fazenda.
O atual governador e candidato à reeleição, Tarcísio de Freitas (Republicanos), aparece com 50,6% das intenções de voto na disputa pelo governo de São Paulo, segundo pesquisa do Instituto Ideia divulgada na última segunda-feira. O resultado mostra uma vantagem de 17 pontos sobre Fernando Haddad (PT), que registra 33,6% das intenções de voto. Tarcísio não somente ganharia a eleição, como poderia liquidar já no primeiro turno, se for considerada a marca dos 50% na pesquisa estimulada. Os números do Ideia não são muito diferentes da mediana dos demais institutos. A situação de Haddad e seu papel histórico não o desqualificam. É o que já estava escrito. No fundo, no fundo, ele personifica um bordão consagrado pelo presidente Lula, em debate televisivo com o candidato Paulo Maluf, na disputa presidencial de 1989. Maluf se dizia como mais preparado e competente para o cargo. Lula pegou a deixa e devolveu com ironia o elogio em causa própria do adversário: “Realmente, o Maluf é competente. Compete. Compete. Compete. E nunca ganha”.
Um exemplo contrário, em outro palco e com diferentes protagonistas, ocorrido em um passado distante e que poucos conhecem, merece ser contado. Tudo gira em torno do empresário Antônio Ermírio de Moraes, que foi um “antipalanqueiro” radical. Mais ainda: dizia que não disputaria eleição na qual não tivesse praticamente a certeza da vitória. A história é praticamente desconhecida e muito mais saborosa do que a conclusão de que Haddad já perdeu, playboy. Pois bem, nos estertores do governo Sarney, o establishment, chamemos assim, procurava um candidato de porte, líder do setor privado de preferência, e que fosse uma espécie de esteio contra qualquer tentação dos militares de voltarem à cena. Moraes era tudo isso e muito mais: o maior empresário do Brasil, um gigante que tinha se posicionado publicamente contra a ditadura. Ele seria um nome capaz de derrotar Lula e Leonel Brizola, que disputavam a sucessão de José Sarney. O establishment – resumido aqui como o empresário Roberto Marinho, o então presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Albano Franco, empresários da Fiesp e afins, com a articulação da dupla de eminências pardas mor da República, Jorge Serpa e o ex-ministro da Previdência, Raphael de Almeida Magalhães – foi a Sarney e combinou a “Operação Ermírio”. Primeiro, o empresário substituiria o então ministro da Fazenda, Maílson da Nóbrega. Daria um cavalo de pau na economia, em péssimo momento na gestão Sarney. No cargo de maior prestígio do governo, sua candidatura surgiria naturalmente. Fernando Henrique, por sinal, cumpriria esse script cinco anos depois.
Com tudo acertado, ficou faltando apenas o encontro pessoal entre Ermírio de Moraes e Sarney para sacramentar ao vivo e a cores a grande aliança. Um jatinho foi fretado e levou Raphael, Serpa e Ermírio. Chegando no gabinete do presidente, no Palácio do Planalto, Ermírio mudou o discurso e disse que não iria mais aceitar o desafio. Alegou motivos de ordem pessoal. Raphael, durante toda a vida, diria que Ermírio de Moraes “colocou o rabo entre as pernas”. Pode ser. O certo é que o empresário jamais seria um “palanqueiro”. O resto da história todo mundo sabe. Fernando Collor de Melo ganhou a eleição e tornou-se presidente. E só não foi impichado porque renunciou do cargo.
Opinião
Trump cai na teia das muitas Espanhas
20/07/2026- [addtoany]
Claudio Rial Fernandez, editor
Donald Trump subiu ao pódio da Copa do Mundo para entregar a taça à Espanha claramente disposto a capturar parte da celebração. O presidente da Fifa, Gianni Infantino, benevolente e submisso às seguidas ingerências trumpistas no evento, tentou conduzi-lo discretamente para fora do centro do palco. Trump resistiu por alguns instantes. Mikel Merino imitou com ironia o conhecido movimento de braços do presidente norte-americano, transformando a coreografia em deboche. Rodri, o capitão da Espanha, segurou a taça, olhou de soslaio para Trump e esperou que ele começasse a se retirar. Só então levantou o troféu. Minutos antes, a cerimônia de entrega das medalhas já havia registrado pequenos gestos de antipatia ao chefe de governo. Borja Iglesias apertou a mão do presidente sem encará-lo e aparentemente ignorou uma tentativa de interlocução. Unai Simón, que já o havia cumprimentado secamente ao receber a premiação de melhor goleiro da Copa, sequer repetiu a formalidade ao ganhar sua medalha de campeão. Lamine Yamal limitou-se a um contato rápido, que parte da imprensa e das redes interpretou como frieza. Nenhuma dessas atitudes, isoladamente, autoriza uma conclusão definitiva sobre a intenção dos jogadores. Reunidas no mesmo pódio, porém, elas formaram uma sequência política difícil de ignorar.
Não se tratava apenas de cinco atletas demonstrando maior ou menor simpatia por uma autoridade. Diante de Trump estavam cinco jogadores formados em cinco ambientes territoriais e sociais diferentes: a Galícia de Borja Iglesias, a Navarra de Mikel Merino, o País Basco de Unai Simón, a Comunidade de Madri de Rodri e a Catalunha metropolitana de Lamine Yamal. Regiões com histórias próprias, sistemas partidários distintos e relações muito diferentes com o poder central, a identidade espanhola, a autonomia, a imigração e a própria ideia de nação.
Seria simplista afirmar que os jogadores reagiram daquela forma porque nasceram nessas comunidades. Até porque nem tudo é o que parece. O comportamento dos referidos atletas carrega um volume de contradições maior do que a posse de bola da Espanha na decisão. Rodri cresceu em uma das áreas mais conservadoras da região madrilenha. A Galícia de Borja Iglesias é um dos principais redutos eleitorais do Partido Popular, de direita. Navarra foi historicamente um centro do tradicionalismo católico. O País Basco é politicamente plural e não pode ser confundido com uma única corrente nacionalista. As origens regionais não explicam sozinhas os gestos. Servem, porém, para revelar a densidade simbólica da cena de uma nação formada por muitas nações.
Borja Iglesias oferece a associação mais concreta porque sua posição pública não começou no encontro com Trump. Ao longo da carreira, o atacante se manifestou contra o racismo, a homofobia e os códigos rígidos de masculinidade ainda predominantes no futebol. Pintou as unhas, apoiou campanhas em defesa da diversidade e enfrentou ataques por se pronunciar sobre temas que muitos jogadores preferem evitar. Antes mesmo da final, já havia demonstrado desconforto diante da perspectiva de encontrar o presidente norte-americano. Seu cumprimento protocolar, sem contato visual e sem qualquer esforço para prolongar a interação, não foi, portanto, um episódio desconectado de sua trajetória.
Borja nasceu em Santiago de Compostela, cidade em que diferentes Galícias convivem. Há a Galícia conservadora, católica, rural e eleitoralmente fiel ao PP. Há também uma tradição galeguista, republicana, autonomista e de esquerda, construída em torno da defesa da língua, da cultura regional e da resistência à homogeneização vinda do centro. O próprio arranjo constitucional espanhol reconhece o galego como língua oficial da comunidade, uma das chamadas nacionalidades históricas do país. O atacante representa uma dissidência progressista dentro de uma região majoritariamente conservadora. Sua trajetória pública se aproxima da Galícia urbana, culturalmente heterodoxa e menos disposta a aceitar como naturais os padrões tradicionais de gênero, autoridade e comportamento.
Mikel Merino trouxe ao palco outra Espanha. Nascido em Pamplona, vem de um território que reúne tradições políticas aparentemente inconciliáveis. Navarra foi um dos grandes centros históricos do carlismo, movimento monarquista, católico e contrarrevolucionário. Ao mesmo tempo, o carlismo navarro incorporou a defesa dos fueros, os antigos direitos e instituições próprias da região. Essa combinação entre conservadorismo social e resistência ao centralismo ajudou a formar uma cultura política singular, que não cabe confortavelmente na divisão convencional entre direita e esquerda.
Na Navarra contemporânea convivem o navarrismo conservador, o socialismo, o nacionalismo basco, o independentismo de esquerda e diferentes formas de autonomismo. A própria denominação oficial de Comunidade Foral conserva a memória de uma relação com o Estado espanhol baseada não apenas em submissão às decisões de Madri, mas em pactos, competências próprias e direitos históricos. O sistema territorial espanhol reconhece tanto em Navarra quanto no País Basco regimes forais que os diferenciam das demais comunidades autônomas.
Unai Simón acrescenta a esse quadro uma das identidades territoriais mais fortes da Espanha. Nascido em Vitoria-Gasteiz e criado em Murgia, na província de Álava, o goleiro chegou ainda adolescente ao Athletic Club e construiu toda a sua carreira profissional na equipe de Bilbao. Sua ligação com o País Basco não é apenas biográfica. Está inscrita também no clube que representa. O Athletic mantém uma política centenária de escalar somente jogadores nascidos ou formados futebolisticamente nos territórios bascos. Não há muitos clubes de elite no mundo cuja composição do elenco esteja tão diretamente associada a uma identidade territorial. No Athletic, a origem dos jogadores não é uma circunstância lateral. É parte da definição da instituição. Ao defender a seleção espanhola, Unai carrega simultaneamente duas pertenças que não precisam ser excludentes: é o goleiro da Espanha e um dos principais símbolos esportivos contemporâneos do País Basco.
Rodri desmonta qualquer interpretação determinista. Nascido em Madri e criado em Villanueva de la Cañada, o capitão vem de uma região governada pelo PP desde 1995 e de um ambiente eleitoral fortemente conservador. Sua biografia territorial não permite apresentá-lo como expressão natural de uma Espanha progressista ou antitrumpista. Exatamente por isso, seu comportamento talvez tenha sido o mais significativo. O gesto mais institucionalmente eficaz contra o excesso de protagonismo de Trump veio de um atleta formado na comunidade que se tornou o principal laboratório político da direita espanhola.
Lamine Yamal, por sua vez, oferece a imagem socialmente mais carregada. Nascido em Esplugues de Llobregat e criado em Rocafonda, em Mataró, é filho de pai marroquino e mãe da Guiné Equatorial. Cresceu em um bairro operário, de renda relativamente baixa e marcado pela presença de famílias vindas de outras partes da Espanha e, posteriormente, de vários países. Transformou os três últimos algarismos do código postal de Rocafonda, 304, em uma assinatura pessoal exibida nas comemorações. Rocafonda pertence à Catalunha metropolitana construída por sucessivas ondas migratórias. Primeiro chegaram trabalhadores da Andaluzia, Extremadura, Múrcia e de outras regiões espanholas para abastecer a industrialização catalã. Depois vieram marroquinos, latino-americanos, africanos subsaarianos e famílias de várias origens. Por isso, o breve encontro entre Lamine e Trump concentra um embate maior do que a expressão facial do jogador transparecia. De um lado estava um presidente que fez do fechamento de fronteiras, das deportações e da hostilidade à imigração pilares de sua identidade política. Do outro, um filho da imigração africana, convertido em símbolo nacional espanhol.
Com a subserviência de Infantino, Donald Trump mergulhou em um notório projeto de takeover da Copa. O presidente anulou o cartão vermelho de Balogun, impediu que a delegação do Irã permanecesse em território norte-americano antes e depois dos jogos, negou o visto ao árbitro somali Omar Abdulkadir Artan, restringiu a entrada de torcedores iranianos, haitianos, marroquinos, egípcios, jordanianos, iraquianos e uzbeques. O ato final foi a tentativa de dividir as atenções com os campeões do mundo. Não conseguiu. Assim como o time da Argentina caiu na impressionante teia da Espanha, notável por aprisionar os adversários dentro do seu estilo de jogo, Trump também foi enredado. Perdeu a bola para as diversas Espanhas que estavam ao seu redor: a Galícia de Borja Iglesias, a Navarra de Merino, o País Basco de Unai Simón, a Madri de Rodri e a Catalunha imigrante de Lamine Yamal. As muitas Espanhas fecharam os espaços. Trump saiu de cena. A taça subiu.
Opinião
Em nome da liberdade de imprensa e da responsabilidade corporativa
3/07/2026- [addtoany]
O Itaú está abrindo um precedente que pode mudar a percepção de credibilidade do jornalismo convencional. Ao lançar um site próprio de “notícias” para se contrapor ao Metrópoles, o banco dos Setúbal cria um fato novo: a possibilidade de as corporações concorrerem com a imprensa, substituindo a prática jornalística pela comunicação institucional. Se o Itaú, assim como todos, está amparado pelo artigo 5º da Constituição Federal, “que protege a liberdade de informação e assegura o direito de resposta proporcional ao agravo”, por que motivos a instituição está se valendo da proliferação de mídias próprias – ÉFake e Factópoles – com a justificativa de evitar que o público fique exposto a “leituras unilaterais”? Se o Itaú notificou extrajudicialmente o Metrópoles, conforme o próprio banco divulgou, e ainda tem o direito do recurso à Justiça, qual a razão para lançar mão de um expediente autoritário, que, no limite, coloca toda a imprensa em xeque? Não custa lembrar que foi o bom e velho jornalismo o responsável pela apuração de alguns casos que se encobriam debaixo do manto da institucionalidade.
Opinião
A falta que faz um Banco Central realmente independente
14/04/2026- [addtoany]
Uma eventual CPI do Banco Master deveria incluir também o ex-presidente do Banco Central Roberto Campos Neto e o Nubank. Os motivos são transversais. O Master seria investigado por fraude; Campos Neto, por conflito de interesse; e o Nubank, por favorecimento. Há um fio condutor entre todos esses personagens: são protagonistas da coleção de maus momentos do BC. A tão decantada independência do Banco Central ficou devendo um histórico de maior nobreza. Se o Master já foi esquartejado em praça pública, a conexão entre o ex-presidente do Banco Central e o seu atual empregador sequer foi inquirida. Ambos permanecem usufruindo de suas relações diferenciadas. Algumas línguas ferinas chegam a dizer no mercado: será que Campos Neto já era Nubank antes de ser Nubank? Seja como for, aleivosias à parte, o banco deitou e rolou na elisão regulatória que permitiu leis diferentes para a mesma atividade econômica durante toda a gestão do ex-titular do BC. As fintechs, bancos que não eram bancos, sempre fizeram o mesmo que bancos que são bancos fazem – só que apertados por uma regulação draconiana. O Nubank é o principal representante dessa espécie que circula sem amarras pela selva do sistema financeiro, já que a decantada mudança regulatória do BC se limitou mesmo a um golpe semântico. Quem é fintech não pode mais usar o epíteto ou aposto banco ou bank – motivo pelo qual o próprio Nubank saiu à caça de uma licença bancária. No mais, as assimetrias legais não foram inteiramente corrigidas.
Roberto Campos Neto, agora vice-chairman do Nubank, acalentou a vida boa das fintechs durante todo o seu mandato – conforme o RR já tratou por diversas vezes – ver, por exemplo, (https://legado.relatorioreservado.com.br/noticias/campos-neto-precisa-ser-ouvido-para-o-bem-da-sua-propria-reputacao/). O Nubank, por exemplo, não tem do que reclamar. Em 2018, ano anterior à entrada de Campos Neto na presidência do BC, a instituição financeira somava R$ 10,7 bilhões em ativos, uma carteira de crédito de R$ 6,9 bilhões e uma base de 5,9 milhões de clientes. Coincidência ou não, sob a gestão do economista à frente do Banco Central, deu-se o milagre da multiplicação. O Nubank tornou-se a instituição financeira privada com maior número de clientes no Brasil – 112 milhões no ano passado, ou 61% da população adulta no país. Sua carteira de crédito chegou a R$ 160 bilhões. O volume de ativos passou dos R$ 252 bilhões. Por uma infeliz coincidência, foi também sob o mando de Campos Neto no Banco Central que o Master virou o que virou. A gênese de tudo se dá já sob a sua gestão, quando o BC deu autorização para a venda do então Banco Máxima a Daniel Vorcaro, em outubro de 2019, operação, ressalte-se, que havia sido reprovada oito meses antes na administração de Ilan Goldfajn, seu antecessor. Entre 2019 e 2024, o volume de ativos declarados do Master saiu de R$ 3 bilhões para mais de R$ 80 bilhões, um salto impressionante de mais de 2.500% – proporcionalmente muito superior até mesmo ao crescimento do próprio Nubank em igual intervalo (2019 a 2024): 780%. Em igual período, a carteira de crédito do Master aumentou 20 vezes. Mais uma vez, acima do Nubank, que multiplicou suas operações de crédito em 12 vezes nos mesmos cinco anos.
Não bastaram denúncias de que o enxame dessas instituições estava ferroando uma vasta clientela, a maior parte de baixa renda. Não foi por falta de alerta de muita gente, inclusive dos grandes bancos. A resiliência das fintechs pode ser explicada pelo fato de o Banco Central não ter tomado as medidas necessárias. Mesmo quando já havia fortes indícios de entrelaçamento de algumas dessas instituições com o crime organizado. Causa estranheza que o fato de Campos Neto ter sentado em cima da boa vida das fintechs durante toda a sua gestão vá ficar por isso mesmo, sem que se busque uma explicação maior para tamanha complacência. A justificativa de que as fintechs aumentariam a competição bancária e permitiriam um maior acesso a crédito com juros menores desde o início revelou-se uma grande balela. Aliás, o BC nunca montou um sistema de acompanhamento do crédito e dos juros dessas empresas. Se o mimetismo das fintechs com um Banco Central pasmo já é um caso de difícil explicação, a relação incestuosa de Campos Neto com o Nubank é moralmente inadmissível, para dizer o mínimo. O flerte entre ambos é antigo, sabendo-se da admiração do ex-presidente do BC pela agilidade e modelo de negócio da fintech-mor do Brasil. Um modelo de negócio que, em parte, ele ajudou a construir, permitindo que uma instituição financeira se tornasse enorme tendo o mesmo o ônus de um vagalumezinho do setor e bem menor do que os bancos de verdade que estão há décadas gramando seu lugar ao sol. O escândalo é que Campos Neto deixou a presidência do BC para virar vice-chairman do Conselho e executivo do Nubank. Levou consigo, o que é inevitável, as informações que colheu no BC e junto ao seu preceptor, Paulo Guedes. E Campos Neto, ressalte-se, não é o único cordão umbilical que liga o Nubank ao Banco Central. No ano passado, a instituição financeira contratou como consultor o ex-diretor de Regulação da autoridade monetária Otávio Damaso. Ou seja: há quase um “BC do B” dentro do Nubank.
Sendo assim, por que toda a antiga diretoria do BC não deveria ser chamada para depor em uma hipotética CPI do Master, do Nubank e de Campos Neto? Primeiro, por uma questão de ordem institucional. Os representantes do banco como um todo não podem ser colocados sob suspeição. Adicione-se o fato de que nem todas as diretorias da autoridade monetária estão diretamente envolvidas com as fintechs. Além disso, em última instância, foi Campos Neto quem deixou essas instituições financeiras deitarem e rolarem durante o seu mandato inteiro. A amoralidade que cerca o setor reafirma a necessidade de se colocar a luz do dia sobre estranhas transações.
Opinião
Talvez os ministros de Lula tenham que estudar mais
27/03/2024- [addtoany]
Há uma relação de disfuncionalidade cognitiva entre os ministros de Lula e o próprio presidente quando criticam Roberto Campos Neto ou mesmo o BC, de forma institucionalizada, toda a vez que a política monetária não funciona conforme sua vontade primitiva. Ou seja, se não for para reduzir juros, tudo o mais está errado, invariavelmente. O ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho, cuja Pasta não tem nada a ver com política monetária ou qualquer assunto similar, disse hoje que o BC “tem que estudar mais. Está faltando estudar um pouco fundamentos da economia”. De acordo com Marinho, aumentar a taxa básica de juros, a Selic, é “a forma burra de fazer”. Marinho talvez não seja burro. Pode ser que somente essa declaração tenha sido uma burrice. Mas o fato é que ele não sabe que toda a declaração de autoridade da República interveniente nas decisões de política monetária tem o condão de elevar as taxas, através do seu impacto na curva de juros futura, noves fora, a sinalização de que o presidente do BC e toda a instituição são uns mentecaptos. Também estimula a queda bolsa e a elevação do dólar. De qualquer forma, os juros não recuam porque um ministro se manifesta. Se Marinho realmente quer que as taxas caiam, deveria evitar palpitar sobre o assunto. Pelo menos publicamente. Seria outra burrice.