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O que precisa ser dito
Desde que voltou a ocupar a Casa Branca em seu segundo mandato presidencial, Donald Trump, ao destroçar o sistema de organismos multilaterais e hostilizar aliados históricos dos Estados Unidos, vem exibindo em matéria de política externa um comportamento que pode ser generosamente classificado como esdrúxulo. Na linguagem popular, isso tem levado a que se ouça com frequência que “Esse cara é louco!”, porém os aspectos visivelmente incomuns de sua personalidade já foram comentados em vários livros e se se baseiam até mesmo em diagnósticos profissionais. Na verdade, há quase dez anos, a psiquiatra Bandy Lee reuniu, na obra significativamente intitulada “The Dangerous Case of Donald Trump” (“O caso perigoso de Donald Trump”), as opiniões de nada menos que 27 especialistas em sanidade mental que questionaram sua capacidade de ocupar cargos de grande envergadura por revelar um quadro ostensivo de narcisismo e tendências sociopáticas.
Na verdade, sua megalomania e outros sintomas já eram notáveis mesmo antes que Trump se tornasse um político. Como agressivo agente imobiliário e homem de negócios, ele recorreu diversas vezes às bancarrotas espetaculares nas áreas de cassinos e hotéis deixando o prejuízo por conta dos investidores, porém conseguindo manter uma aura pessoal indestrutível de sucesso. A melhor prova disso é dada pelo New York Times que, no distante 2004, sentenciou: “Seu nome se tornou um sinônimo tão reconhecido de sucesso que até mesmo os reveses mais humilhantes mal afetam sua reputação. . . . As regras que governam outros simplesmente não se aplicam a Trump.” Profético, não?
A imagem dourada de Trump, em muito devida à sua arrogância e postura autoritária, ganhou repercussão nacional graças ao papel de âncora que desempenhou nos shows de televisão intitulados “O aprendiz” e “O aprendiz celebridade”, transmitidos pela NBC de 2004 a 2015. Somente quando ele anunciou sua entrada na corrida presidencial com uma retórica racista, homofóbica e contrária aos imigrantes os espetáculos de televisão foram encerrados. No entanto, já então ele era uma figura muito bem conhecida popularmente como um sujeito durão que dizia as verdades que outros buscavam ocultar. Relembrando o lema da campanha de Ronald Reagan em 1980, o MAGA (Make America Great Again) já renascera nas entranhas da nação.
Alguns métodos de Trump no campo externo são hoje bem conhecidos:
De forma geral, essas manifestações podem ser – e frequentemente são – revertidas numa questão até de horas sem o menor pejo, como se as opiniões de Trump fossem vistas num caleidoscópio que as alterasse com um mínimo movimento do tubo geopolítico. Em termos práticos, devido à sua reiteração ad nauseam, equivalem ao preço pelo tapete que o mercador num bazar anuncia embora esteja disposto a reduzi-lo à metade caso o freguês deseje iniciar um processo de barganha. Também em geral, tais declarações e gestos espetaculosos, muitas vezes acompanhados de palavras de baixo calão, têm como objetivo distrair a atenção do público interno pois ocupam os meios de comunicação por algum tempo.
Em suma, vistos numa perspectiva de prazo mais longo, as táticas empregadas por Trump nada têm de lunáticas, representando condutas deliberadas que o tornaram um bilionário (cuja fortuna cresce a cada dia por residir no número1600 da Avenida Pensilvânia, Washington, DC) e comandante das forças armadas mais poderosas que o mundo já viu. A pergunta que se impõe é se, já sendo um caso-limite em matéria de transtornos de personalidade, Donald Trump terá condições de enfrentar as crescentes frustrações no quadro internacional e na economia interna que reduziram para 33% seu índice de aprovação popular. Uma derrota nas eleições de meio do mandato, com a perda de uma ou até mesmo das duas casas do Congresso para o Partido Democrata, pode ser a gota d’água. Com seu coração sempre cheio de mágoa, mas sem direito ao fundo musical da bela canção do Chico Buarque…