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Política externa
A ação de reciprocidade do governo brasileiro — aliás, nem chega a ser uma ação; é apenas uma análise sobre se a ação será adotada — é como jogar milho em galinheiro vazio. Não é política externa. Ainda que a notificação seja conduzida pelo Ministério das Relações Exteriores, trata-se de uma medida feita para o público interno ver. Bravata. Ato de campanha. Ela serve mais às candidaturas antilulistas — leia-se, é claro, Flávio Bolsonaro e o súbito e emergente Ronaldo Caiado — do que ao próprio Lula. Ao contrário do que tentou fazer parecer durante boa parte do terceiro mandato, Lula não sabe atuar na política externa para além da velha ladainha de pedir ajuda multilateral para os clássicos problemas mundiais da fome e da miséria, agora acrescidos da questão climática. Acha que é ouvido e, incrível, ainda alimenta a fantasia de um Prêmio Nobel da Paz.
O que Lula fez com a ação de reciprocidade foi um convite para que Donald Trump e Marco Rubio se aproveitem da medida incauta e retaliem ainda mais o Brasil. E, o que é pior, angariando o apoio do empresariado brasileiro. Vão cacarejar ainda mais alto que Lula não soube conduzir as negociações; que criou uma situação de enfrentamento com os EUA já perdida por natureza; e que são eles próprios, os empresários, que vão pagar o pato, ou, no caso, a galinha. Talvez a melhor metáfora fosse o peru, o turkey, que os americanos tanto prezam. Ele está sendo servido em pleno período pré-eleitoral. A iniciativa ainda permitiria que Rubio e cia. adotassem novas medidas punitivas, inclusive suspensão de acordos que envolvem a nossa área militar. O arsenal dos EUA para prejudicar terceiros é do arco da velha.
O empresariado nacional, que, em algum momento os borderline do Itamaraty e da Casa Civil imaginaram ser aliado do governo, sempre foi e continua sendo radicalmente antilulista. O tal lobby junto ao USTR (Office of the United States Trade Representative) e ao Congresso norte-americano não passou de protocolo e encenação. Basta ir à Fiesp e perguntar a qualquer representante empresarial para valer da casa – sobretudo aos integrantes do Ciesp, quem realmente manda na casa – para ver se há alguma concordância com a atuação do governo brasileiro. O empresariado de raiz sempre soube que teria uma reciprocidade, essa, sim, real, em verbas compensatórias oficiais. O dinheiro dito perdido está voltando aos cofres debaixo de um guarda-chuva linguístico, o Plano Brasil Soberano, que vai disponibilizar crédito às empresas e aos setores afetados. A proximidade eleitoral fará com que esse dinheiro saia rápido. O Ministério do Planejamento já provisionou R$ 18 bilhões para irrigar os prejudicados. É possível que, no final, saiam até ganhando, com a agilização do prazo de liquidez.
A ação de reciprocidade contra os EUA, para se tornar algo efetivo, vai ter de atravessar pelo menos cinco camadas até passar das análises a medidas de consideração e reconsideração. E Camex para lá, Camex para cá, além de reuniões com o Executivo norte-americano. Não vai andar. Enquanto isso, os EUA já podem ir refogando a acusação de que o Brasil é o grande líder dos três níveis do Grande Esquema de Transbordo, uma forma logística de driblar, por meio de países terceiros, as sanções comerciais à China. O Brasil está no segundo grupo. É mole promovê-lo à liderança do nível mais alto.
Conforme o RR já deu a deixa (Leia aqui), daqui para frente, fora o crescente mal-estar diplomático e as medidas para provocar, inclusive, a soberania brasileira, pode-se chegar até o limite dos Estados Unidos financiarem o adversário de Lula. Dinheiro cash mesmo. Se for Flávio Bolsonaro, o Brasil estará submisso à lógica da América integrada, a Great America, o pedação do projeto do Maga. Se for Caiado, dá no mesmo. Portanto, se Lula, o chanceler Mauro Vieira, o eterno assessor para assuntos diplomáticos, Celso Amorim, os neófitos do Planalto, Janja, quem mais for, não esquecerem o USTR, o Departamento de Estado, as provocações de Rubio, as tarifas, e a advocacia empresarial (inexistente), o governo só tem a perder. Que Lula diga que vai propor um encontro com Trump, que o assunto será tratado com rigor depois das eleições, ou seja, qualquer declaração que o afaste do contencioso. Conforme antecipou o RR, as eleições, mesmo que não sejam integralmente vencidas de fora para dentro, têm um coeficiente de interferência internacional não visto desde o pré-1964. E a soberania? Melhor deixar o assunto na mão dos militares, que vão tratar do que fazer em reuniões intermináveis, secretas e igualmente inúteis, nos seus Altos-Comandos.