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Economia
“Toc, toc, toc… Não adianta bater, que eu não deixo você entrar. As Casas Pernambucanas é que vão aquecer o meu lar.” Esse jingle foi o maior sucesso dos anos 60 no mercado publicitário brasileiro. A marchinha abria a propaganda do então potentado do varejo no segmento de artigos de cama e banho. É possível associar a resistência ao frio das Pernambucanas com a resiliência do Brasil em relação às recessões da economia. Não há evidência ainda de que em 2026 e 2027 teremos uma queda do PIB nominal ou mesmo real. Em 2026, inclusive, a probabilidade é muito baixa. É provável, contudo, – aliás, é quase certa – a ocorrência de uma recessão técnica atingindo os dois primeiros trimestres de 2027.
Principalmente se Lula, uma vez reeleito, ou seu sucessor seguir a receita de Maquiavel e fizer o mal de uma vez e o bem aos poucos. A chance de um crescimento negativo do PIB nominal e do real seria maior se o período fosse estendido até 2028. Em pesquisa realizada pelo RR, com o uso de IA própria, sobre uma amostragem de 27 técnicos no assunto, 18 economistas e analistas financeiros consideraram esse cenário como o mais provável no segundo ano do futuro governo, ou seja, 2028. Mesmo assim, repleta de ponderações, tal qual os ares que vêm do mundo, a intensidade do remédio que será aplicado para o ajuste econômico e os efeitos das expectativas psicossociais do ajuste, assim como a ressaca que se sucederia à aplicação medicamentosa em uma economia estruturalmente enferma, são uma incógnita.
É claro que, para os governos, sempre está tudo em ordem e, quando não está, será corrigido com certa facilidade. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou no final de julho que não existe a possibilidade de o Brasil ter uma recessão em 2027, dizendo ainda que o país verá um boom se a taxa de juros cair. Por boom entenda-se um mega PIB já no próximo ano. Na pesquisa do RR, ninguém acredita nisso. Pelo contrário. Mesmo não enxergando uma recessão anual, portanto plena, o risco de ocorrência de uma recessão técnica (dois trimestres consecutivos de resultado negativo) é uma hipótese esmagadora. Em 2026, há pequena dispersão em relação ao crescimento do PIB, mas são raríssimos os que projetam um PIB negativo. No Boletim Focus, a estimativa de expansão da economia neste ano teve uma ligeiríssima queda de 1,99% para 1,98% na comparação com a semana anterior – para 2027, a previsão também recuou, de 1,57% para 1,52%. É desanimador, mas não chega a ser um “arrasa PIB” nem nada que enseje uma recuperação demorada. Já o FMI, tradicionalmente conservador, corrigiu para cima suas projeções para o aumento do PIB brasileiro neste ano, de 1,9% para 2,4%. Bem, é verdade que o Fundo usa uma metodologia diferente de cálculo.
O BTG Pactual já flertou, em recente relatório, com esse cenário bem mais tristonho. Disse que “o Brasil pode enfrentar uma recessão acompanhada pela contração do consumo das famílias em 2027, caso os estímulos ao crédito ampliem o endividamento neste ano e sejam seguidos por um processo mais intenso de desalavancagem sobre a situação financeira das famílias brasileiras. O banco ressalta que essa possibilidade integra um cenário extremo, enquanto as projeções mais moderadas ainda apontam crescimento do consumo no próximo ano. Para 2026, a expectativa é de relativa resiliência.
Iniciativas governamentais de crédito, estímulos fiscais e a continuidade do endividamento devem sustentar um avanço de aproximadamente 2,2% a 2,3% no consumo”. A ponderação é típica das análises bancárias, que “mordem e sopram”, para que suas projeções sempre possam ser interpretadas como certas ou erradas pelo freguês.
O ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga, uma voz mais incisiva, acha até que, no final de 2026, já pode haver um prenúncio de recessão técnica, aliás um fenômeno comum em períodos de final e aurora de governos. Mas, para 2027, Fraga crava na ferradura: a economia brasileira enfrenta uma crise estrutural grave com risco concreto de recessão no próximo ano. Em julho de 2026, ele disse que o quadro era desastroso, uma verdadeira vergonha. Pode ser que já tenha mudado de opinião. Não seria a primeira vez.
Felipe Salto, economista-chefe da Warren Investimentos, que se notabilizou pelos seus cálculos e opiniões enquanto esteve à frente do IFI (Instituição Fiscal Independente), órgão ligado ao Senado Federal, declarou ao Valor Econômico, em 5 de agosto, que é bom ficar de olho na inflação, mas não só na carestia, como também em uma recessão que pode vir em 2027. Para quase todos, existe um quadrúpede ameaçador: cenário externo, fiscal, juros e inadimplência. A correção dessas variáveis exige injeções dolorosas. Ou, então, sorte, como teve Lula com o boom das commodities. Mas há quem não deposite na fortuna, como o próprio Maquiavel define a sorte. E nem na virtù, ou virtude, que seria uma mudança na lógica da política econômica. Bem recentemente, o presidente do Grupo Itaúsa, Alfredo Setubal, surpreendeu os espectadores da apresentação dos resultados do Itaú, alertando que podemos ter uma pequena recessão e aumento da inadimplência em 2027. O cenário, segundo ele, é de uma economia bastante desacelerada. Setubal não explicou bem o que seria uma pequena recessão: se uma recessão técnica, de um semestre, ou uma baixinha no PIB anual, mas conjecturou o assunto.
Na pesquisa do RR, todos os analistas chamam atenção para os juros elevados. Salto disse que a Selic segue em patamar “bastante elevado” e estimou um juro real de cerca de 10%: “A taxa de juros está em um nível bastante elevado: 14% a partir de agora, descontando uma inflação esperada, digamos, de 4% para o ano que vem, nós estamos falando de um juro real de 10%”. Ressalte-se que a política monetária produz efeitos com defasagem. Não existe um relógio preciso para medir quando uma alta ou uma queda dos juros chega com maior força à atividade econômica. Podem ser seis meses, sete, oito, nove… ou no mês que vem, já que os juros amalucados vêm sendo praticados desde o governo Bolsonaro.
Pois bem, há que se mirar também os indicadores de risco Brasil. Explica-se: uma deterioração desses indicadores tende a elevar o prêmio de risco e pressionar as taxas de juros de mercado. Todos os fazedores de country risk olham o fiscal com lupa. O risco país EMBI+ é um indicador para emergentes com metodologia criada pelo banco americano J.P. Morgan na década de 90. O mercado aderiu e acompanha o indicador como um credo. Ele monitora o desempenho de títulos públicos de países emergentes em relação aos norte-americanos. Ou seja, o valor indicado no risco-país de cada um dos países emergentes representa o prêmio de risco estimado desses países em relação aos papéis considerados mais seguros no mundo. O Brasil não está nem bem, nem mal nesse índice. Coluna do meio. Existe também o CDS (Credit Default Swap). Em maio, por exemplo, o CDS de cinco anos do Brasil registrou 116 pontos, o menor nível no terceiro mandato de Lula. Também foi o patamar mais baixo desde fevereiro de 2020, ainda durante a gestão de Jair Bolsonaro.
O índice é usado pelo mercado para medir o risco de calote da dívida soberana. A queda sinaliza uma melhora na percepção de risco do país entre investidores internacionais. No caso, ele responde ao cenário econômico, marcado, entre outros quesitos, por juros elevados, com a taxa Selic em 14% ao ano, inflação acima da meta central, ambiente institucional e cautela de investidores estrangeiros. Os mais bem pontuados no CDS são Noruega, Alemanha, Estados Unidos e Cingapura. Argentina e Rússia têm posições ruins no ranking. O Brasil se coloca em uma faixa intermediária, até favorável em relação aos mercados emergentes tradicionais. Neste mês, o doce sabor de maio se alterou. O Credit Default Swap (CDS) de cinco anos do Brasil oscila na faixa de 121 a 124 pontos-base, ao menos refletindo uma percepção de risco estável e controlada em comparação aos picos de anos anteriores.
Existem também os ratings, calculados pelas agências de risco. As que pesam são Standard & Poor’s, Fitch Ratings e Moody’s. As notas atribuídas pela tríade definem se o país está em um patamar seguro para receber investimentos ou distante do chamado grau de investimento. No final, esse “opinômetro” todo vai incidir na taxa de juros real, variável chave dessa perscrutação sobre uma possível recessão a partir de setembro, às vésperas da eleição, e, é claro, na vinda de capitais estrangeiros. Em 2026, o Brasil vem performando bem junto a essas agências, mesmo frente ao quadro agravante da economia. As principais mantiveram o risco do Brasil no nível especulativo (grau não de investimento), a um ou dois degraus de recuperar o investment grade. O avanço da nota esbarra principalmente na alta da dívida pública e nas incertezas fiscais, para não variar. Se o Sr. Einstein estivesse entre nós, repetiria às agências que tudo é relativo.
Mas, voltando ao risco de recessão, não é tradição do Brasil colecionar resultados negativos. Desde 1940, somente tivemos 10 anos de PIB real anual negativo. Quanto ao PIB nominal (em valores correntes de mercado), o Brasil nunca registrou fechamento anual negativo na série histórica oficial do IBGE ou do Ipeadata desde 1940. O que fica negativo em crises severas é o PIB real (variação em volume, descontada a inflação). Como o Brasil conviveu historicamente com inflação crônica ou positiva, a multiplicação de preços correntes evitou quedas nominais anuais do produto bruto. Nossa tradição é de crescimento positivo, com ciclos longos de PIBs espetaculares.
No final de 2026, como os medicamentos para combater o carcinoma que se encrustou no Estado brasileiro, é possível – aliás, é razoável que se pense assim – que o Brasil tenha o prenúncio de uma recessão técnica. É bastante provável que ela dure mais do que dois trimestres seguidos, mas uma boa aposta, segundo a sondagem do RR, é que o país ainda feche o ano com um Pibinho. Vai ser empurrado para um resultado nada auspicioso. Já será uma maravilha frente à “dilmização” da economia neste final de mandato do Lula III.